Doenças do cigarro matam 10 brasileiros por hora

FÁBIA ASSUMPÇíO
Estima-se que no Brasil, a cada ano, 80 mil pessoas morram precocemente devido ao tabagismo, número que vem aumentando a cada ano. Em outras palavras, cerca de 10 brasileiros morrem por hora por causa do cigarro. Uma das doenças diretamente relacionadas ao tabagismo é o câncer. A pneumologista Norma Suely Gomes de Athayde explica que o tabagismo está intimamente ligado a 30% dos casos de câncer e 90% das mortes por câncer de pulmão. Os outros tipos de câncer relacionados ao uso do cigarro são: de boca, laringe, esôfago, pâncreas, rim, bexiga e colo de útero.
O fumo também é responsável por 25% das mortes causadas por doenças coronarianas e também cerebrovasculares. Nas doenças pulmonares obstrutivas crônicas, tais como bronquite e enfisema, 85% das mortes são causadas pelo fumo. Outras doenças que também estão relacionadas ao uso do cigarro e ampliam a gravidade das conseqüências de seu uso são: aneurismas arteriais, úlceras do trato digestivo e infecções respiratórias.
O que vem chamando a atenção nas últimas décadas, segundo Norma Suely, é o crescimento do número de doenças causadas pelo fumo entre as mulheres. A relação da mortalidade por doença arterial coronária entre homens e mulheres, que em 1970 era de 10 para 1, hoje é de 2,45 para 1 em Estados como São Paulo. Segundo a pneumologista, quanto maior o tempo que a pessoa fuma, piores podem ser as conseqüências para a saúde. Os fumantes geralmente apresentam uma história típica de doenças pulmonares obstrutivas crônicas, como enfisemas pulmonares e bronquites crônicas, principalmente após os 40 anos de idade.
As mulheres brasileiras também têm um dos mais elevados coeficientes de mortalidade por doença cerebrovascular no mundo, principalmente antes dos 64 anos. O tabagismo tem implicações ainda mais graves nas mulheres do que nos homens, como comprovam alguns estudos recentes. Entre essas implicações está a redução da taxa de fertilidade entre mulheres fumantes. E mesmo quando ocorre fertilização, durante a gravidez, o tabagismo acarreta ações consideradas maléficas para a mãe e o feto. A nicotina reduz o fluxo placentário, determinando envelhecimento precoce da placenta e favorecendo descolamento prematuro, abortamento, menor crescimento do feto, neonato com baixo peso e portanto, maior natimortalidade. Fumar de um a quatro cigarros já reduz consideravelmente o fluxo placentário.
O tabagismo é o principal fator de risco para doença arterial coronária nas mulheres. Estudo com 11.843 homens e mulheres na faixa etária entre 25 a 52 anos, residentes na Noruega, revelou que as mulheres que fumavam mais de 20 cigarros por dia tinham seis vezes mais chances de ter infarto agudo do miocárdio quando comparadas a não-fumantes. Nos homens fumantes o risco foi três vezes maior.
A interrupção do tabagismo está associada à redução de 50% a 70% do risco para doenças cardiovasculares nas mulheres. Após dois a três anos de abandono do tabagismo, as ex-fumantes têm risco cardiovascular igual às das mulheres que nunca fumaram. Entretanto, apesar do grande benefício em parar de fumar, as mulheres apresentam mais dificuldades que os homens. Não é incomum muitas interromperem o tabagismo durante a gestação, motivadas por preocupação como o feto ou por aversão ao cigarro proporcionada pelas alterações hormonais próprias da gravidez. No entanto, a taxa de recaída após a concepção é muito elevada. Fora do período da gravidez, a preocupação com ganho de peso é muitas vezes responsável por recaídas ou mesmo, importante fator desmotivador.

Fumantes passivos
A pneumologista Norma Suely ressalta que as pessoas que não fumam não estão livres dos malefícios causados pela fumaça dos cigarros. Os não-fumantes expostos à fumaça do cigarro absorvem nicotina, monóxido de carbono e outras substâncias da mesma forma que os fumantes, embora em menor quantidade. “Os fumantes passivos ficam expostos a mais substâncias cancerígenas do que os da corrente primária (ou seja os fumantes)”, explica. A quantidade de tóxicos absorvidos depende da extensão e da intensidade da exposição, além da quantidade da ventilação do ambiente onde se encontra a pessoa.
Tendo em vista que as pessoas passam 80% de seu tempo em locais fechados tais como trabalho, residência, locais de lazer e hospitais, o cigarro é considerado, pela OMS, como o maior agente de poluição doméstica ambiental. Os fumantes passivos sofrem os efeitos imediatos da poluição tabágica ambiental, tais como irritação nos olhos, manifestações nasais, tosse, cefaléia, aumento de seus problemas alérgicos, principalmente das vias respiratórias, e aumento de problemas cardíacos, principalmente elevação da pressão arterial e angina (dor de peito).
Outros efeitos a médio e longos prazos são a redução da capacidade funcional respiratória (o quanto o pulmão é capaz de exercer a sua função), aumento do risco de ter arteriosclerose e aumento do número de infecções respiratórias em crianças. Além disso, os fumantes passivos morrem duas vezes mais por câncer de pulmão do que as pessoas não submetidas à poluição tabágica ambiental.
A fumaça do cigarro é uma mistura de cerca de cinco mil elementos diferentes. A pneumologista Norma Suely Gomes de Athayde diz que são exatamente 4.750 substâncias nocivas à saúde contidas em um cigarro. E afirma que não existem cigarros mais ou menos saudáveis. Todas as formas de uso do tabaco, inclusive os cigarros com mentol, filtros especiais, com baixos teores (light, extra-light) têm uma composição semelhante. Ela salienta que mesmo escolhendo produtos com menores teores de alcatrão e nicotina, os fumantes acabam compensando essa redução, fumando mais cigarros por dia e tragando mais freqüente ou profundamente, ou seja, fazendo outras modificações compensatórias em conseqüência da dependência da nicotina.
Segundo Norma Suely, já existem hoje medicamentos capazes de ajudar as pessoas que querem parar de fumar. Um deles é o bupropiona, um antidepressivo. “O medicamento não é indicado para menores de 18 anos, quem têm problemas de anorexia nervosa, bulimia e histórico de alcoolismo, porque age no sistema nervoso central”. Outro tratamento indicado é o uso de adesivos de nicotina, que evita de o paciente vim a sofrer síndrome de abstinência, por não estar fumando.
Entre as principais substâncias contidas no cigarro estão a nicotina, considerada uma droga pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Sua atuação no sistema nervoso central é como a da cocaína, com uma diferença: chega a 2 e 4 segundos mais rápido ao cérebro que a própria cocaína. É uma droga psicoativa, responsável pela dependência do fumante.
Outra substância contida no cigarro é o monóxido de carbono que tem afinidade com a hemoglobina, contida nos glóbulos vermelhos do sangue, que transportam oxigênio para os tecidos de todos os órgãos do corpo. A ligação do monóxido de carbono com a hemoglobina forma o composto chamado carboxihemoglobina, que dificulta a oxigenação do sangue, privando alguns órgãos do oxigênio e causando doenças como arteriosclerose.
O alcatrão é outra substância composta por mais de 40 elementos comprovadamente carcinogênicos, que incluem o arsênio, níquel, benzopireno e cádmio. Carcinogênicos são substâncias que provocam câncer, como os resíduos de agrotóxicos nos produtos agrícolas, como o DDT, e até substâncias radioativas, como é o caso do polônio 210 e o do carbono 14, todos encontrados no tabaco.
Fonte: Gazeta de Alagoas