Vício de fumar começa cada vez mais cedo, diz pesquisa

07h13 – Pesquisa da Secretaria de Saúde revela que alunos de escolas públicas do Distrito Federal têm o primeiro contato com cigarro aos 14 anos. De cada 100 estudantes, 18 fumam regularmente

O vício começa cedo. Um tanto desajeitados, corpo ainda acertando peso e altura, muitos já fazem do cigarro um companheiro de toda hora. De cada 100 alunos das escolas públicas do Distrito Federal, 18 fumam regularmente. A conclusão faz parte de um estudo realizado pela Secretaria de Saúde entre alunos de 8ª série dos ensinos fundamental e médio.

A pesquisa mostra que o hábito é precoce entre os jovens. A média do primeiro contato é aos 14 anos. Mas, às vezes, ocorre três ou até quatro anos antes. ‘‘Infelizmente, a curiosidade e a influência da publicidade e de outras pessoas têm empurrado o adolescente cada vez mais cedo para o tabaco’’, lamenta o coordenador do Programa de Controle de Combate ao Câncer e ao Tabagismo da secretaria, Celso Rodrigues.

Especialista em Pneumologia, Rodrigues coordenou o estudo, feito em parceria com a Secretaria de Educação entre os meses de setembro e novembro de 2003. Foram ouvidos 1,2 mil alunos de 13 a 19 anos das escolas da rede pública de Ceilândia, Recanto das Emas e Samambaia. A amostra corresponde a 1% de todas as turmas de 8ª série do ensinos fundamental e médio do DF, mas é capaz de retratar o problema.

‘‘O jovem é cheio de dúvidas e ansiedades. O cigarro é vendido para ele como sinônimo de auto-afirmação, de identidade’’, explica o chefe do Serviço de Pneumologia do Hospital Universitário de Brasília (HUB), Carlos Alberto Viegas. Nos questionários, os alunos indicaram pessoas que os influenciaram na decisão de experimentar o tabaco. Os amigos tiveram participação significativa, com 30% das respostas.

Mas pais e professores também compartilham a influência negativa na mesma proporção. ‘‘Os jovens buscam referências o todo tempo, seja entre os amigos, na escola ou dentro de casa’’, observa Celso Rodrigues. Caso do estudante do 1º ano do ensino médio F.T.N., 15. ‘‘Meu pai sempre fumou na minha frente. Não gostou quando comecei. Me aconselha a parar, mas ele nunca parou..’’

Chapado
‘‘A nicotina exerce forte poder de dependência, já que age no sistema de recompensa, responsável pelo prazer. O jovem, ainda em processo de formação, se torna presa fácil’’, explica o psiquiatra André Malbergier, coordenador do Grupo de Estudos de Álcool e Drogas do Hospital das Clínicas de São Paulo. Além disso, o tabaco não deixa o fumante “chapado’’, a exemplo de outras drogas, ‘‘o que o torna socialmente aceito’’.

Entre os amigos de F.T.N., praticamente todos fumam, embora tenham consciência dos males do cigarro. ‘‘Sei que faz mal, mas se todo mundo vai morrer, porque não aproveitar a vida da melhor forma?’’, diz a estudante da 8ªsérie P.G., 14. Ela diz que começou por curiosidade. ‘‘Tenho uma irmã que fuma. De tanto vê-la, também resolvi.’’

O estudante do 1º ano do ensino médio R.P.S., 16 anos, fuma cigarros‘‘de qualquer marca’’ desde os 13 anos. ‘‘Meu pai sempre fumou na minha frente. Um dia roubei um cigarro dele e não parei mais’’, conta o garoto. ‘‘Eu sei que faz mal, mas por enquanto não vou parar.’’

No começo de 2003, a Faculdade de Saúde da Universidade de Brasília (UnB) traçou o perfil do consumo de cigarro entre jovens de escolas públicas e particulares. Cerca de dois mil alunos participaram do estudo e 10% dos entrevistados admitiram fumar regularmente. Nas escolas públicos, o índice é ainda maior — chega a 18%.

Fonte: Correioweb