Jovens usuários de esteróides tomam fisiculturistas como exemplo

LONDRES (Reuters) – “Os vencedores nunca desistem”, diz uma frase gravada sobre os espelhos de uma academia, onde corpos suados puxam ferro em pequenas salas repletas de colchonetes e equipamentos de levantamento de peso.

Mas a dedicação completa não basta, diz o treinador dessa academia de Londres. Qualquer um que queira superar o seu “potencial genético” precisa tomar esteróides.

“A gente deveria achar que esteróides são perigosos mas, se isso é verdade, como pode que todos esses profissionais os usem?”, pergunta o treinador, que pede para ser identificado apenas como Jonny.

Esteróides são proibidos na maioria dos esportes profissionais, mas são corriqueiros no fisiculturismo. Seu uso provoca comportamento agressivo, acne, dores de cabeça e danos ao fígado e rins, embora isso não pareça incomodar homens e mulheres que buscam o corpo “perfeito”.

“Quero continuar ganhando músculos, e isso simplesmente não é possível sem esteróides. Olhe esses caras”, diz Jonny, apontando para fotos de campeões do fisiculturismo, todos com um sorriso forçado e exibindo músculos impossíveis.

Para especialistas médicos, o preocupante é que o uso de esteróides não se restringe mais aos aspirantes a Schwarzeneggers. Os jovens recorrem cada vez mais a eles para melhorar o físico e a auto-estima.

Linda Johnstone, coordenadora de uma das poucas clínicas britânicas para usuários de esteróides, em Liverpool, disse que nos últimos cinco anos houve um enorme aumento no número de rapazes que procuram o local.

“Para os mais velhos, o importante é o desempenho. Os mais jovens só querem ter uma melhor aparência. Eles querem ter barriga e peito perfeitos, e querem já”, afirmou ela.

“Não é para ficar enorme”, diz um usuário de 20 anos. “É para ter uma aparência melhor. Se não, como vamos impressionar as moças?”

Para Jonny, usar esteróides é “uma escolha individual”. “A maioria das pessoas nem percebe do que se trata. É mais perigoso quando há desconhecimento a respeito”, afirma ele, que se informou a respeito conversando com outros usuários e folheando livros e artigos.

TREINAMENTO

Johnstone, cuja clínica recebeu cerca de 200 clientes no ano passado — alguns dos quais viajaram centenas de quilômetros para isso -, afirma que informações confiáveis são difíceis de conseguir. “Muitos novos usuários são induzidos pelos mais velhos e não percebem que há riscos à saúde”, afirmou ela.

A clínica oferece agulhas e seringas descartáveis, ensina as pessoas a injetarem os esteróides de forma segura e também dá conselhos de saúde. “Um problema é que eles não se consideram usuários de drogas”, disse a especialista.

Lee Monaghan, um dos poucos acadêmicos que investigaram os esteróides, explicou que os usuários não se consideram “drogados” porque esse produto é associado à melhora do físico, não à alteração da consciência.

Os usuários, segundo Monaghan, consideram ter uma vida saudável e frequentemente discordam da possibilidade de que esteróides possam fazer mal.

“É muito mais difícil dar conselhos de saúde aos jovens”, disse Johnstone. “Eles ouvem o que querem ouvir — eles sempre estão interessados na saúde até certa altura, mas se você diz que (o uso) está afetando seu fígado, eles não querem saber.”

Um dos clientes de Jonny, que trabalha no mercado financeiro e tem 30 anos, acha que a melhor forma de se informar sobre o assunto é fazendo parte da comunidade de usuários. “Você está armado de conhecimento quando está em uma academia com gente que usa esteróides. O preocupante são as pessoas que compram esteróides pela Internet, pois não têm nem idéia do que estão fazendo ou como usar.”

CORPO PERFEITO

As vendas pela Internet são responsáveis por outra tendência, segundo uma entidade britânica que trata de viciados em drogas. É que muitos usam analgésicos opiáceos para poder exercitar os músculos além do limite normal da dor.

O surgimento de novas drogas reabriu o debate sobre o quanto as drogas que melhoram o desempenho esportivo podem viciar.

“Há um crescente conjunto de evidências sugerindo que os esteróides criam dependência, mas não fisicamente”, disse Johnstone. “Grande parte disso tem a ver com a imagem do corpo. Vemos que as pessoas começam com uma má imagem de seu corpo e conseguem um corpo muito musculoso em um tempo muito curto, e acham que se pararem de usar os esteróides vão voltar para onde estavam antes.”

“Esteróides não provocam dependência física”, insiste Jonny. “Eu não preciso usá-los de novo. Mas provoca dependência psicológica. Fisicamente, não preciso deles, mas eu quero. Eu quero ser maior.”

Fonte: Yahoo