Usuários de drogas correm mais risco de ser vítimas de violência

O uso indevido de drogas aumenta o risco de ser vítima de um ato violento, fundamentalmente se a pessoa for mulher, segundo a “angustiada conclusão” dos novos estudos que a ONU dispõe sobre o consumo de drogas.

O relatório anual da Junta Internacional de Fiscalização de Entorpecentes (Jife), apresentado em Viena hoje, terça-feira, compara os estudos que destacam a relação do consumo de drogas e o risco de ser vítima, em contraste com o de “cometer um ato criminoso”.

“Este enfoque é inverso ao utilizado na maioria das pesquisas, que fazem insistência no uso indevido de substâncias e na propensão a delinqüir”, explica a Junta, órgão autônomo das Nações Unidas encarregado de velar pela aplicação adequada dos entorpecentes no mundo todo.

“As drogas podem prejudicar temporária ou permanentemente, durante um período de uso indevido prolongado, a capacidade da pessoa para interpretar corretamente situações perigosas e reagir diante delas”, diz o relatório.

Os especialistas registraram que entre mulheres que foram vítimas de violência, as sob efeito de droga têm mais chances de ser objeto de agressão sexual que as que sofrem problemas de alcoolismo.

“Os novos relatórios sobre as chamadas drogas de “encontros com fins de violação”, que são administradas a mulheres sem que elas saibam, são um exemplo de uma perturbadora tendência ao uso indevido de drogas e a vitimização violenta”, ressalta o estudo.

Outro grupo muito exposto é o de estudantes que consomem ou vendem drogas ilícitas, adverte a Junta em seu relatório.

Entre eles, se ressalta que os crimes relacionados ao consumo de droga são em geral “não violentos e com freqüência menores. Os delitos econômico-compulsivos para obter drogas, como o roubo e o furto, são mais comuns que a agressão violenta induzida pelas drogas”.

Muitos toxicômanos não são delinqüentes nem violentos, mas, pelo contrário, são vulneráveis a ser vítimas do crime.

Explica que “há uma grande quantidade de provas que apóiam a afirmação que, em certas condições, o consumo de álcool estimula a violência”, e “indícios” de que a cocaína, a anfetamina e os barbitúricos facilitam que um indivíduo perpetre um delito violento.

Por outro lado, a ingestão de cannabis (maconha e haxixe) e opiáceos, inibe a agressão, mas a abstenção do consumo dessas drogas durante um longo período de tempo produz nas pessoas viciadas irritabilídade e hostilidade, assinala o relatório.

Os estudos revelaram em geral que a violência psicofarmacológica (desatada pelo efeito de substâncias ingeridas), incluído o homicídio, está associada quase sempre ao uso indevido de álcool.

Por outro lado, a violência econômica-compulsiva poucas vezes está relacionada com as drogas, mas quando o está é porque decorre das batalhas por “território” nos mercados de drogas ilícitas.

Neste contexto, se adverte que “é muito difícil, e pode dirigir a erro, propor um nexo causal direto entre a violência e a ingestão de drogas sem referência a fatores culturais e sociais”, entre eles o desemprego e a insegurança social.

“A violência que afeta algumas famílias e comunidades não é simplesmente uma conseqüência do uso indevido e do tráfico ilícito de droga local, mas pode refletir uma cultura de violência muito arraigada que tem outras origens, como a distribuição desigual dos renda, distúrbios civis ou guerras”, insiste a Jife.

Fonte: Último Segundo