Valor político de controle das drogas cresce na América do Sul

A importância política do controle das drogas cresce nos países da América do Sul, em parte devido à ajuda direta dos Estados Unidos, o principal fornecedor “em fundos e em espécie” do continente nesta luta, onde a cooperação com Washington nas atividades de repressão é “bastante visível”.

Assim destaca o Relatório 2003 da Junta Internacional de Fiscalização de Entorpecentes (Jife) apresentado em Viena hoje, terça-feira, que lembra também a estreita inter-relação entre o narcotráfico e o comércio ilícito de armas.

Na América do Sul, a política de controle de drogas “continuou sendo objeto de crescente atenção dos governos e adquiriu importância política”, diz a Jife, um órgão autônomo do sistema das Nações Unidas encarregado de velar pela disponibilidade de entorpecentes necessários para a saúde e evitar seu uso indevido.

O documento insiste em que os governantes sul-americanos reconheceram no problema das drogas ilícitas uma crescente ameaça política.

Em conseqüência, muitos governos decidiram “dedicar uma parte cada vez maior de seus limitados recursos à redução da oferta de drogas” e adotaram medidas para atacar os cultivos e o tráfico ilegais, assim como a lavagem de dinheiro.

“O que originalmente se conheceu como o Plano Colômbia, patrocinado pelos Estados Unidos para reduzir a oferta de drogas proveniente da Colômbia e outros países sul-americanos, se converteu em uma atividade muito mais ampla, denominada Iniciativa Andina contra as Drogas Ilícitas”, lembra a Jife.

Acrescenta que, “como resultado dessa iniciativa, o governo dos Estados Unidos é atualmente o maior fornecedor de assistência em fundos e em espécie aos países” sul-americanos nas atividades destinadas a combater o narcotráfico.

“As atividades de repressão e cooperação judicial com Estados Unidos se manifestam de forma muito visível através de extradições, operações de interdição e a cooperação em investigações sobre lavagem de dinheiro”, acrescenta a Junta.

Também aumentou a cooperação entre as autoridades dos países da região, como demonstra o fato de “as operações conjuntas das forças policiais do Brasil e da Colômbia que tiveram êxito na luta contra o tráfico de drogas terem sido estendidas a Peru, Suriname e Venezuela”.

A Jife destaca que “constantemente recebe relatórios sobre o intercâmbio de armas por drogas ilícitas” e que em alguns países, como Peru, “os rebeldes protegem os cultivos ilícitos da folha de coca”.

Nesse Estado, apesar das contínuas atividades de erradicação das plantações de coca, a superfície total permaneceu estável, enquanto que na vizinha Bolívia, onde nos exercícios anteriores se tinham alcançado reduções, aconteceu um leve aumento em 2002.

Segundo os dados da Junta, em julho de 2003 havia na Colômbia -o maior produtor mundial de cocaína- uns 69.000 hectares com cultivos ilícitos de arbusto de coca, o que supõe uma redução de 58 por cento com relação a 2000, o ano recorde.

Ao reconhecer este êxito, a Junta adverte no entanto que “a maior parte dessa redução é decorrente da fumigação aérea” e que a permanência do bom resultado “dependerá em grande medida da criação de outras fontes de renda para os agricultores”.

Da mesma forma que no caso de Bolívia e Peru, se insiste na necessidade de que os governos possam oferecer meios de subsistência alternativos e sustentáveis tendo em conta “que os preços da coca são mais altos que os dos cultivos lícitos”.

Em todo o continente, “o potencial de fabricação total de cocaína permaneceu em cerca de 800 toneladas em 2002, o que indica uma tendência estável ou em declive”, assinala o documento.

Por outro lado, destaca o desmantelamento de laboratórios de cocaína em Argentina, Bolívia, Chile, Brasil, Equador e Venezuela, e que os três últimos “continuam sendo os países de passagem que comunicam as maiores apreensões de cocaína”, cujo destino principal é o mercado negro dos Estados Unidos.

A respeito do Uruguai, a Junta adverte da necessidade que o Governo amplie as disposições de luta contra a lavagem de dinheiro a “certos setores financeiros vulneráveis”, como contadores, cassinos e agentes imobiliários.

Fonte: Último Segundo