Justiça de Minas vai leiloar veículos de traficantes a 60% do valor real

(Fernanda Odilla /Redação EM)
(Marcelo Portela/Redação EM)

Depois de um leilão fracassado e de oito anos de tentativas mal-sucedidas, Minas Gerais se prepara vender carros, motos, caminhões e aviões tomados de traficantes. Em abril, pelo menos 60 bens, que há anos estão parados em pátios da polícia ou em espaços alugados, devem ser leiloados a “preço de banana”, a 60% do valor real.

É o caso de uma carreta Volvo turbo 2, avaliada em R$ 70 mil no mercado, mas que deve ser negociada a R$ 42 mil. A grande maioria dos veículos já virou sucata, e teias de aranha, flores e trepadeiras cobrem as carcaças abandonadas nos pátios da Divisão de Tóxicos e Entorpecentes, do Departamento da Polícia Federal e da empresária Lílian Portugal, em Belo Horizonte.

A maior dificuldade dos organizadores do leilão é identificar onde estão os bens e quais já foram liberados pela Justiça. Alvos de ações cheias de recursos que tramitam lentamente, esses veículos estão parados há anos. Alguns ainda estampam as antigas placas amarelas com duas letras, tiradas de circulação há mais de dez anos.

É o caso do Mitsubishi Eclipse UE 5599, do Rio de Janeiro, que chegou no final de 1999 e provocou olhares admirados dos funcionários do pátio do Leilão Lílian Portugal, onde está guardado. Hoje, está enferrujando e com o vidro de trás quebrado.

Fatal

“Essa demora é fatal”, lamenta Clóvis Benevits, coordenador do convênio criado no ano passado pelo Estado para fazer inventário dos bens móveis de traficantes apreendidos em Minas. Há mais de seis meses uma equipe tem se desdobrado para localizar processos de tráfico de drogas nos arquivos do Tribunal de Justiça, acompanhar o andamento dos casos nas mais diferentes instâncias, encontrar onde estão esses bens e monitorar o estado de conservação de cada um deles.

Até agora a equipe já identificou cerca de 300 veículos, incluindo 80 que estão livres para serem comercializados. O primeiro lote deve ser leiloado em abril. E outros dois leilões estão marcados para maio. “Queremos fazer pequenos eventos, nada apoteótico”, explica Clóvis, temendo que o fracasso do primeiro e único leilão de bens do tráfico de Minas, em 1996, seja repetido. Na época, sobraram carros e a maioria voltou para o pátio.

Vedetes

“Fica o estigma de que esse tipo de bem foi usado para o crime, e a aceitação é mais difícil”, argumenta Clóvis. Por isso, a Secretaria de Estado Antidrogas quer que o lance mínimo dos bens seja apenas 60% do preço avaliado. Além disso, algumas ‘vedetes’ foram escolhidas para serem o carro chefe do leilão.

Outros veículos, em melhores condições, estão autorizados a rodar com as polícias Militar, Civil e Federal. A PM também aproveita, há quatro anos, duas mansões do traficante Fernandinho Beira-Mar, em Betim, na Grande BH. Uma delas, que conta com campo de futebol, piscina, churrasqueira e móveis rústicos, é a sede do 33º Batalhão.

A outra, no nobre bairro Ingá de Cima, é a casa funcional do comando, onde vive o subcomandante do BPM. “A gente fica com de receio de usar bens de traficantes. Não é uma situação muito confortável e é preciso ter cuidado, mas melhor a polícia usar carros e casas que deixar ao relento, apodrecendo”, avalia o tenente-coronel José Luiz Oliveira Nunes, comandante do BPM.
Fonte:Portal Uai