Pais inseguros, filhos sem limite

O adolescente precisa ser contra alguma coisa para construir sua personalidade. A tarefa mostrava-se mais fácil quando lutava por liberdade sexual. Hoje, o sexo liberado tirou importante aspecto da construção dessa independência. Por isso, os limites são imprescindíveis.

O Espaço para Reflexão de Pais de Adolescentes, promovido pelo Centro de Estudos do Crescimento e Desenvolvimento do Ser Humano do Departamento Materno Infantil da Faculdade de Saúde Pública da USP, oferece a oportunidade de os pais refletirem sobre como foi sua adolescência para daí extrair novos modelos de educar. São cerca de dez pais e mães de adolescentes, reunidos de 24 de outubro a 6 de dezembro, no Centro de Educação Permanente. “Não é um grupo terapêutico”, avisa a psicóloga Sueli de Queiroz, uma das organizadoras.

O Espaço nasceu da constatação de que esses pais mostravam-se “perdidos” em relação a qual atitude tomar. “Chegam a pedir conselhos a coordenadores de escola, portanto precisam de apoio”, acrescenta Sueli. Apoio não é exatamente o que o Espaço oferece, porém é o que vão buscar. “Querem receitas prontas de como educar os filhos,” diz. Mulheres são mais numerosas, embora os homens estejam se agregando. O problema é tão sério, com tanta gente envolvida — diz a psicóloga —, que é considerado de saúde pública. Especulando sobre o assunto, Sueli acredita que, no futuro, os adolescentes de hoje criarão seus filhos com mais rigor.

Segundo a psicóloga Elaine Rabinovitch, coordenadora do Espaço, o atual modelo de núcleo familiar é muito tolerante em relação à sexualidade: “Tudo pode, está tudo bem”, costumam repetir pais “bacaninhas, politicamente corretos”, que querem ser sempre amigos dos filhos, simulando ter sua pouca idade e hábitos. Não oferecem restrições, são companheiros, o que acaba atrapalhando os adolescentes, pois estes “precisam da autoridade para poder lutar contra ela”, diz. “Os pais não querem ser para os filhos o que seus pais foram para eles, mas não têm alternativas.” Demonstram aversão ao autoritarismo, querem ser transparentes, apreciam o diálogo, buscam dar-lhes opção de uma relação mais aberta, diferente do que viveram.

Afirmam que seus pais tiveram “certezas”, mas não conseguem encontrar o equilíbrio que permitiria torná-los menos inseguros. “Hoje os pais passam aos filhos inseguranças e incertezas que os seus também tiveram, porém discutiam-nas longe dos filhos e lhes davam o resultado dessas discussões.” Criados com certezas, demonstram precisar delas, agora, para prosseguir. Mas as repudiam. Os grupos os auxiliam a encontrá-las, a partir da troca de experiências. Adolescentes, hoje, pedem limites, prossegue a psicóloga Sueli, especializada em distúrbios provocados por drogas e álcool. “Tais limites estão muito flexíveis, frouxos, em função da insegurança dos pais.”

A troca de percepções resulta em crescimento, pois possibilita encontros capazes de permitir a todos se exporem. Ao final, concluem que sabem muitas coisas, e poderiam passá-las aos filhos, mas não o fazem por medo. Após concluírem o curso, porém, demonstram mais segurança quanto a tomar decisões.
Fonte: USP