“Lançamento em Profundidade”: Já não tem fundo, e nem luz, o poço de Diego Maradona

Sinceramente não me choca saber que o poço de Diego Maradona não tem mais fundo, não dispõe de mais luz. Também não me impressiona ler o que disse Rolando Chandía, psiquiatra chileno, a respeito do momento do ex-Pibe de Oro.

De acordo com Chandía, um viciado crônico, que não mais batalha pela sua cura, atravessa quatro etapas: o desemprego, a prisão, o hospital e o cemitério. Diego já mergulhou nas três primeiras. Sabe-se que não possui mais de 30% do potencial das suas funções cardiológicas. Ou, perto do fim. Já não basta cuidar das suas crises de abstinência. É preciso evitar que se mate.

Não me choca e não me impressiona porque eu acompanhei de muito perto o instante exato da morte moral de Maradona, por volta das 13h00 do dia 30 de Junho de 1994, em Boston, nos Estados Unidos. Então, depois de inúmeras confusões e trapalhadas, ele disputava, de forma absolutamente exemplar, com a seleção da Argentina, a sua quarta Copa do Mundo. Controladíssimo pela mulher, Cláudia Villafane; por seus pais, Don Diego e Doña Tota; por seu empresário, Júlio Marcos Franchi; por seu fisicultor, Fernando Signorini; e por um médico respeitadíssimo, o Dr. Néstor Alberto Lentini. Havia se entregado a três meses severos de emagrecimento e de recondicionamento. Determinado a jogar a Copa, até mesmo aceitara se abster dos óleos e das gorduras.

De modo a tornar a sua dieta mais confortável, mais tranquila e mais veloz, Maradona ingeria, diariamente, duas cápsulas de um produto norte-americano, o Universal Ripped Fast, sem qualquer contra-indicação, comercializado, sem a necessidade de uma receita, nas lojas do GNC, o General Nutrition Center dos EUA, especializado em alquimias naturais.

Lentini testou e retestou o Fast – não constatou que pudesse provocar problemas. Então, azar, 48 horas antes de a Argentina enfrentar a Nigéria, em Boston, acabou-se o estoque do Fast. Coube a Daniel Cerrini, nutricionista de Maradona, providenciar a reposição. Só que Cerrini não achou o Fast e comprou um correlato, Ripped Fuel.

Duplo azar, o Fuel continha Efedrina, uma substância ultrapassada, incapaz de melhorar a performance de um atleta – mas, desafortunadamente, incluída no rol das proibições da FIFA. Ah, triplo azar, o bingo do anti-doping sorteou Maradona. Que acabou banido da Copa: “Gordo, eu juro que não me droguei, juro pelas minhas filhas”, ele me assegurou, aos prantos, num telefonema, por volta das 13h00 daquele triste dia 30 de Junho de 1994. “Eu juro! Eu juro! E, ainda assim, eles quebraram as minhas pernas, eles acabaram comigo!”

Eles. Dezenas de desdobramentos políticos, da FIFA à AFA, a Associação de Futebol da Argentina, envolvem o episódio, cujas minúcias eu desvendei em um texto gigantesco, de página dupla, na “Folha de S. Paulo”. Aqui, prefiro me limitar aos humanos. Na sua carreira, Maradona jamais fizera sacrifícios tão absurdos para se recuperar. Queria se provar ao mundo, à sua pátria, à sua família, aos seus amigos, como um cidadão digno e um craque espetacular. E, no entanto, acabara traído por uma estúpida troca de medicamentos…

Claro, foi inevitável a decadência, com o recurso torpe do consolo na cocaína. Exauridos na sua luta para salvá-lo, Franchi e Cláudia o abandonaram. Sem esposa e sem empresário, pior, Maradona se refugiou na companhia vil de Guillermo Estebán Coppola, seu ex-empresário, já denunciado, em 1991, como intermediário de traficantes. Um desfecho claramente anunciado.

Cruzei com Diego, pela última vez, anos atrás, nas tribunas de um jogo entre o Boca e o Palmeiras. Fingia felicidade, até pela presença das filhas, Dalmita e Giannina. Presenteou-me com uma camisa do Boca, autografada. Como a camisa não ostentasse um número nas costas, escreveu, à caneta: “El Diez”. Intuí, porém, a falsidade da sua alegria. Percebi a fragilidade do seu momento. Tudo que aconteceu depois foi uma simples consequência. Pena. Talvez, não ocorresse aquela troca estúpida de medicamentos, em 1994, um novo Dieguito brotasse da Copa dos EUA. Talvez. Amarga a minha boca esse talvez.
Fonte: Ùltimo Segundo