O futuro da prevenção das toxicodependências

Embora seja sempre um exercício difícil prever de que forma um determinado domínio da intervenção psico-social poderá evoluir, destacariamos dois episódios ocorridos recentemente para desenvolver algumas reflexões gerais sobre o futuro da prevenção das toxicodependências.

O primeiro, refere-se a uma informação transmitida pela APA – American Psychological Association – em 15 de Agosto de 1997, dando a conhecer os resultados de três estudos que, genericamente, avaliavam diferentes tipos de estratégias de intervenção psico-social dirigidas a crianças e adolescentes.

Especificamente, um dos estudos incluia uma avaliação do programa D.A.R.E. – Drug Abuse Resistance Education; outro estudo analisava o impacto da educação sexual na escola; por último, o terceiro estudo examinava a eficácia da legislação sobre os conteúdos dos programas de televisão no sentido de satisfazer o que os seus autores designaram por necessidades educacionais das crianças.

A notícia salientava que, com base nos resultados destes três estudos, seria legítimo concluir que as estratégias de intervenção psico-social que têm como população-alvo as crianças e os adolescentes não se têm revelado inequivocamente eficazes. No que se refere ao estudo que avaliou a eficácia do programa D.A.R.E., por exemplo, verificou-se que os alunos que participaram nesta intervenção, ao fim de 6 anos, não consumiam menos drogas do que os alunos que não participaram no programa. Do mesmo modo, não foram observadas diferenças entre os dois grupos no que se refere a variáveis como as atitudes em relação à escola, as aspirações escolares, ou mesmo a prática de comportamentos anti-sociais.

Um segundo dado, que também nos chega dos E.U.A., revela que, após um declíneo acentuado do consumo de drogas durante os anos 80, está a verificar-se uma inversão desta tendência, já evidente nos estudos epidemiológicos conduzidos partir de início dos anos 90. Alguns desses estudos mostram, por exemplo, que a percentagem de alunos do ensino secundário que refere ter consumido drogas ilícitas durante o último ano, aumentou de 22%, em 1992, para 35%, em 1995. O uso de marijuana é o que tem registado um maior aumento. Assim, por exemplo, a percentagem de alunos a frequentar o 8º ano de escolaridade que refere ter consumido marijuana pelo menos uma vez ao longo da vida, aumentou de 10,2% em 1991 para 19,9% em 1995, o que representa um aumento de 92%.

Estes dois aspectos que seleccionamos para iniciar algumas considerações sobre o futuro da prevenção das toxicodependências poderá induzir a conclusão segundo a qual as avanços no domínio da prevenção não têm sido suficientes para fazer diminuir o número de jovens que se inicia no consumo de diferentes tipos de drogas. No entanto, estabelecer uma relação de causa-efeito entre estes dois aspectos (eventual fracasso da prevenção em meio escolar e aumento das taxas de prevalência do consumo de diferentes tipos de droga) seria bastante questionável.

De seguida, são apresentados quatro argumentos básicos, entre outros possíveis, que contariam este tipo de associação (i.e., o fracasso da prevenção origina um aumento do consumo de drogas):

(1) A popularidade de um programa de prevenção não é sinónimo de eficácia do programa. O que se passa com o DARE é que embora se trate de um programa aplicado em cerca de 70% das escolas americanas e adoptado em mais de 44 países a sua eficácia é nitidamente questionável. Com efeito, uma avaliação recente deste programa (Rosenbaum e Hanson, 1988) confirmou o que já se suspeitava: o programa não produz qualquer efeito preventivo no uso de drogas, embora tenha tido efeitos imediatos e a curto-prazo num conjunto de variáveis mediatizadoras (e.g., atitudes em relação às drogas, aquisição de competências de recusa). No entanto, a maioria desses efeitos acaba por dissipar-se com a passagem do tempo.

(2) Em função do exposto no ponto precedente, é razoável supôr que a proclamada ineficácia dos programas de prevenção em meio escolar, e a sua incapacidade em suster o aumento do número de consumidores, esteja relacionada com o facto de a maioria das escolas não integrar os mais recentes resultados da investigação nesta área nos respectivos programas de prevenção.

Para reforçar esta perspectiva, refira-se que a ausência de maiores e mais persistentes efeitos associados à aplicação do programa D.A.R.E. parece dever-se, entre outros factores, a limitações quer do conteúdo das sessões quer dos métodos utilizados (Rosebaum e Hanson, 1998). Por exemplo, este programa utiliza com menos frequência do que os programas preventivos que se têm revelado mais eficazes em prevenir o uso de drogas métodos activos que implicam um intenso envolvimento dos participantes nas actividades do programa.

Em suma, programas de elevada qualidade (cf. Tobler, 1997 para uma revisão desses programas) estão associados a reduções significativas no uso de diferentes substâncias psicoactivas, verificando-se igualmente que esses efeitos têm tendência a persistir no tempo.

(3) É irrealista pensar que mesmo os melhores programas de prevenção serão capazes de controlar um problema social tão complexo como é o abuso de drogas. Este ponto re-envia para as considerações iniciais que efectuamos a propósito da evolução do domínio da prevenção. Este domínio foi caracterizado durante muito tempo por propôr soluções simplistas para fenómenos bastante complexos. Esta têndencia parece persistir ainda hoje, nomeadamente, quando se procura atribuir à prevenção virtualidades e poderes que ela, na verdade, não tem. De facto, a procura de uma panaceia para o problema das drogas tem feito com que muitas vezes se fixem expectativas demasiado elevadas para um mero programa de prevenção.

(4) Importa sublinhar, por último, que as estratégias de intervenção orientadas para a redução da procura, nas quais se inscrevem os programas de prevenção aplicados em meio escolar, constituem uma fracção muito reduzida dos esforços para controlar o problema das drogas nas sociedades actuais. Deste modo, a dificuldade em suster o aumento do consumo de drogas deverá conduzir a um questionamento global das medidas de controlo do uso de drogas. Nos EUA, por exemplo, que representa, sem dúvida, o país em que as medidas de controlo do problema das drogas são mais rigorosas, a população toxicodependente é hoje equivalente à que existia no início do século XX (Smart, 1997). Alguns autores chegam mesmo a admitir estar-se perante a perspectiva de uma catástrofe social sem paralelo neste país, quando, na primeira década do século XXI, as crianças atingirem a idade de maior vulnerabilidade ao uso de drogas.
Fonte: O Portal dos Psicologos