O passado: o nascimento da ciência da prevenção do abuso de drogas

Falar do passado da prevenção das toxicodependências envolve mais do que uma mera enunciação dos fracassos registados neste domínio da intervenção. A análise da evolução histórica das estratégias de prevenção do abuso de drogas permite, com efeito, retirar alguns ensinamentos susceptíveis de orientar os esforços futuros nesta área.

Um dos ensinamentos que releva da história da prevenção das toxicodependências é o de que não existem soluções simples para problemas sociais complexos. Dito de outro modo, não é possível prevenir o uso/abuso de drogas recorrendo a abordagens lineares e reducionistas como as que se baseiam unicamente no pressuposto de que as informações acerca das drogas constituem um obstáculo suficientemente poderoso para que o jovem se abstenha de consumir drogas.

A dificuldade em aceitar aquilo que é hoje uma evidência incontornável, foi, e ainda é hoje, responsável pela acumulação de um número muito elevado de fracassos nesta área. É que a história da prevenção também nos ensina que as abordagens informativas não só se revelaram ineficazes como mostraram potenciar alguns dos efeitos que pretendiam inibir ou reduzir.

A constatação da ineficácia das estratégias preventivas centradas na disseminação de informações sobre as drogas teve, no entanto, o mérito de desencadear um conjunto de transformações, as quais marcaram a inscrição deste domínio na categoria de área científica. Ou seja, assiste-se, a partir dos anos 70, ao nascimento e constituição da ciência da prevenção do abuso de drogas.

Este aspecto merece ser realçado pois a obtenção deste estatuto terá permitido que o domínio da prevenção das drogas se demarcasse progressivamente dos pressupostos de natureza filosófica ou moral em que se baseou no passado.

Entre outros aspectos, a emergência deste domínio científico teve expressão no aparecimento de formulações teóricas progressivamente mais elaboradas bem como numa preocupação, ainda hoje muito saliente, com a avaliação dos efeitos das estratégias de prevenção. A inscrição algo tardia da prevenção das drogas num registo científico poderá mesmo explicar o fenómeno muito específico desta área que consiste em sublinhar, incessantemente, a necessidade de submeter qualquer intervenção preventiva a uma avaliação rigorosa dos seus efeitos.

Com efeito, a preocupação em avaliar os efeitos das estratégias preventivas começa já a delinear-se em diversos estudos conduzidos nos anos 70, prolongando-se, obviamente, pelos anos 80 e anos 90.
Fonte: O Portal dos Psicólogos