Falemos francamente sobre drogas…

Sempre que falamos em drogas, logo associamos a doenças, depravações e violência, mas nunca a uma realidade universal que envolve toda a humanidade ao longo de milênios.

Diversos estudiosos do assunto são categóricos ao dizerem das mais diversas formas que cigarro mata, bebida demais faz mal, que o viciado em drogas é uma vítima que precisa de nossa ajuda, etc. Infinidades de campanhas são lançadas, clínicas se dizem mais especializadas, remédios contra o fumo são divulgados.

Todos vêem, gostam e suspiram aliviados ao crerem que as coisas estejam sendo cuidadas com tanta seriedade. E aí vem um certo calafrio: pura ingenuidade, vitrine apenas! Uma espécie de “me engana que eu gosto”, ou melhor “que eu preciso ser enganado”. Um faz de conta em que todos inconscientemente aceitam para se isentarem de responsabilidades e participação, acreditando que não precisam se preocupar, pois, existem pessoas cuidando do problema.

Lembro que certa vez um pai me procurou, repleto de autoridade, dizendo que seu filho usava drogas e eu tinha que fazer algo para livrá-lo daquilo, o rapaz querendo ou não!

Quando perguntei, entretanto, porque ele bebia, quase 1 litro de vodka/dia, conforme sua esposa me havia dito, se sabia que não era saudável, disse constrangido e irritado: “Acho que isso não vem ao caso, vim aqui para o sr tratar do meu filho, eu não tenho nada nem quero falar sobre isso…”

Comecemos então por uma pergunta: se é tão ruim assim, se faz tanto mal, por que é que se usa? Há no mínimo uma grande incoerência, pois, se cigarro dá câncer, bebida pode levar à cirrose, por que é que se bebe e se fuma, há milênios, diga-se de passagem? Seria só um descuido com a saúde? Se acreditarmos que sim, deveríamos pensar que beber, fumar, cheirar é bom então! No mínimo, não tão ruim assim, já que nos leva a correr até graves riscos! Alguém se viciaria por acaso em Detefon, BHC ou naftalina?

Perdoem-me aqui os zeladores dos bons costumes, mas na realidade tem-se é muito medo mesmo! Medo de olhar para verdades nuas e cruas que se escondem nos bastidores do dia a dia, pois esta é a face de nossa sociedade pós-moderna; mergulhada no faz de conta de uma mídia globalizada que manipula a incomensurável estrutura do desejo humano, criando imaginários e colocando a imagem coletiva à frente do individual, isto é, não importando mais o que se é de verdade, mas sim o que se parece que é, para ser aceito. Uma espécie de Michael Jacksons em séries.

Uma sociedade onde Joel Birmam em seu trabalho O mal estar na Atualidade, ao citar Lash (A Cultura do Narcisismo) nos mostra tão bem como atingimos um nível de relacionamento tão empobrecido, onde, o Outro é usado em seu desamparo para satisfazer os desejos mais narcisistas dos outros, e, quando não cumpre mais essa função passa a ser descartável. Uma cultura onde o TER é mais importante que o SER. Poderia, pergunto, um mundo assim não ser tão intolerante, violento, fundamentalista e desigual?

O ser humano tem uma angústia gigantesca que o leva freqüentemente a buscar prazer, driblar a dor, esconder suas inquietudes e desconforto interior; custe o que custar, até a própria vida. Desde que descemos das árvores e passamos a vagar pelas savanas podendo exercer escolhas, nunca mais seríamos iguais aos nossos irmãos símios que permanecerem nas árvores à mercê de seus instintos; passaríamos a ter pulsões ao invés de instintos. Cito como exemplo um filme recente intitulado Réquiem para um sonho, aonde, seus protagonistas vão até o limite da morte para conseguirem o prazer total da droga. Entretanto, entenda-se aqui por prazer, não o sentimento de bem estar, mas a descarga absoluta de uma alta voltagem que ameaça eletrocutar seu portador!

Vejam, pois, que curioso, os heróis mais cultuados atualmente são justamente os grandes viciados; viciados em adrenalina! Alguns deles colocam suas vidas a 300 km/hora, em frágeis caixinhas de fiberglass, e despertam multidões nas manhãs de domingo para vê-los se safando de acidentes espetaculares! Outros se espancam em ringues a uma da madrugada, por quantias extraordinárias de dólares. Alguém por acaso se imaginaria acordando às 6 h de um domingo para saber como está a campanha de salvamento das crianças esfomeadas de um país perdido no interior da áfrica? Não, não o creio.

Bem, há muitos anos Sigmund Freud teve a genialidade de perceber que o homem tem forte atração pela vida, mas também pela morte. Chamou de “Instinto de vida” e “Instinto de morte”.

A vida, segundo ele, seria muito mais um estado turbulento do que de felicidade plena. Viver é lutar, tolerar, sentir, pensar, mudar, perder. Já o Instinto de morte seria o oposto, ou seja, a busca de prazer constante, de plenitude, de paz nirvânica, de sonho, fantasia, de não pensar; de tudo aquilo que possa aliviar o fardo pesado da vida. A realidade é dura, é árida: o trabalho, a rotina, os horários, as responsabilidades, a família, a falta de dinheiro, as mortes daquele que nos são caros. O que fazemos diante disso tudo? Tomamos cerveja, fumamos, choramos, vamos à missa, à praia, à pescaria, dormimos, ficamos embriagados, loucos, drogados.

Precisamos de descanso, o viver é difícil, precisamos “morrer” sempre um pouquinho! Aí estão os dois grandes opostos: a realidade impõe luta e vigília, a fantasia oferece descanso.

Para a maioria, talvez, estas alternâncias se fazem sem ferir tanto as convenções sociais e culturais: vive-se e morre-se todo dia sem que isso pareça anormal. Para muitos, entretanto, a vida é simplesmente insuportável, existe a necessidade imediata de se livrar do incômodo (ainda que não se saiba qual), necessidade de somar algo a si mesmo para conseguir suportar.

Somam-se, religiões, esportes, profissões, mas também os psicotrópicos, o álcool, o tabaco, a maconha, a cocaína, a heroína, as anfetaminas. A intensidade, a freqüência e a qualidade desta soma irão determinar o grau do comprometimento e dos riscos de cada um, e isso, ainda dependendo da cultura, sociedade e época em que se fala, pois o fenômeno em si não, este é universal e atemporal.

Vendo a questão do narcotráfico, entretanto, ficamos em apuros! Como realmente crer que possa existir um fim, se a cocaína, por exemplo, é vendida desde o morro do Borél até os bastidores do congresso nacional (como já foi noticiado)? O quê, se não o nível sócio econômico e a impunidade, separam um pivete da favela daquele usuário de gravatas de seda? Como acusarmos a marginalidade, se em festas de alto requinte o “pó limpo” é servido em bandejas de prata? Droga, além de tudo é símbolo de poder, e o ser humano sempre precisou sentir-se poderoso, ainda mais nessa cultura apontada por Lash, onde, o desamparo coletivo é imenso, e a droga perdeu seu caráter simbólico individual, virando uma mercadoria de suma importância que movimenta 600 bilhões de dólares por ano, isto é, tratando-se da segunda maior economia mundial, só perdendo para o petróleo!

É curioso dizer que surgiram novas clínicas ou métodos para o tratamento do alcoolismo, se a cada esquina, perto da sua ou da minha casa existe um bar; se o que mais há no país são bares! Vende-se então abundantemente o veneno para depois tratarmos do doente envenenado? O que faz com que uma droga seja considerada lícita e outra ilícita? Seria o seu potencial destruidor? Seria o momento pelo qual passa a humanidade?

Que a nossa memória não seja curta e não nos esqueçamos que os grandes comerciais dos anos 70 e 80 eram de cigarros e bebidas. Paisagens soberbas, mulheres maravilhosas, esportes radicais eram apresentados ao imaginário popular associados ao consumo dessas drogas: fume isto ou beba aquilo e você terá coisas espetaculares. Desde quando fumar, beber dá mais saúde, disposição física ou virilidade? Alguém se recorda do triste destino do cowboy do cigarro Marlboro? Saberiam as pessoas que mais de 30% das drogas consumidas em todo o mundo são consideradas lícitas (álcool, calmantes e cigarro), e apenas cerca de 3 % ilícitas (maconha, anfetaminas, cocaína, opiáceos)?

Bem, o que fazer então, qual a solução? Com uma certa dose de receio creio não haver solução!! Acho que assim não tem jeito!

Não lidamos na verdade com a patologia dos outros, mas com uma questão que nos envolve profundamente, isto é, com a necessidade de nós mesmos nos drogarmos, da forma e intensidade que cada um puder. Não se trata de uma doença que se extirpa após ser encontrada a causa. A causa é a vida, é o viver. A questão é outra, apesar da onda de medicalização reinante no mundo; e que, neste sentido, nada diferencia o narcotráfico das grandes corporações farmacêuticas: vender a todo custo, quanto mais, melhor. Hoje temos diagnóstico pra tudo, remédios pra qualquer coisa, cada vez menos crê-se na dimensão da palavra como agente de ajuda e mudança; da presença de alguém que se interesse pelo nosso drama e se posicione ao nosso lado verdadeiramente para nos auxiliar. Qualquer um que procure um médico sabe do que falo, ao sair com a sensação de que não foi ouvido naquela consulta relâmpago, com uma receita na mão.

Na verdade toleramos muito mal enxergar tudo isso, pois a loucura está sempre no vizinho, nunca em nós. Perguntar o que fazer com tudo isso se torna difícil de responder. Talvez a única coisa seja continuar vivendo e lutando pela evolução, até quem sabe um dia possamos ser mais donos de nós mesmos, conhecedores e tolerante com nossas angústias e com a individualidade do Outro. Apesar de todo o ar pessimista, creio nesta evolução; creio que possamos aprender a pensar, creio no ser humano.

O ideal Marxista, em essência, pode ser muito interessante, mas seu idealizador certamente se esqueceu de um pequeno detalhe: o próprio ser humano, pois, impor compulsoriamente igualdade, respeito, limites e divisões de valores, enquanto não se chegou a um nível tal onde ódio, inveja e ganância, sejam suplantados pelo amor é pura utopia. Basta olhar para o mundo e constatar o ódio, a violência, a intolerância racial e religiosa como atingiram proporções jamais vistas.

Quando falamos agora em narcotráfico, não devemos nos ater às drogas especificamente, mas à ganância cega da raça humana em explorar tudo aquilo que seja fonte de poder, pois essa é a real podridão, aproveitar-se da miséria alheia para aumentar o próprio poder.

Lembro que além da industria da droga, existem ainda as indústrias da guerra, da fome, da seca, do sexo, da doença, da corrupção….

Quando falamos em tratar viciados, é claro que devemos lançar mão de tudo aquilo que esteja ao nosso alcance, pois não podemos desprezar os esforços terapêuticos, se não temos nada melhor em troca, mas não devemos nos iludir de que tudo isso seja curativo. Não existe nada efetivo para se tratar álcool, drogas e tabaco, simplesmente porque não se trata álcool, drogas e tabaco; são coisas inanimadas que sem o usuário são incapazes de qualquer mal. Usando um pouco de ironia, diria que nunca vi uma garrafa de cachaça voar da prateleira e ir direto à boca de alguém, dizendo: “beba-me, embriague-se e vicie-se em mim!!” Tratamos na verdade da pessoa angustiada e incapaz que está por trás da droga, se ela quiser, se ela enxergar, se tiver um mínimo de consciência de sua dor. Nem sempre é fácil, ou melhor, quase sempre é muito difícil.

Peço desculpas por último se tudo o que digo fere os padrões e as convenções de muitos, mas gostaria de dar-lhes um consolo, pedindo que não tomem muito a sério, pois, são apenas idéias minhas e de um pequeno grupo de pessoas que não se apegam a estereótipos do tipo Globo e você tudo a ver. Não são, portanto, verdades absolutas ou dogmas, do contrário eu mesmo estaria me contradizendo quando me referi a intolerância e ao fundamentalismo. São apenas questões que espero serem seminais, isto é, germinarem reflexões e outros pontos de vista, não só naqueles que nos obrigam a crer, mesmo os da chamada ciência oficial, pois, não devemos nos esquecer que, em que pesem os enormes esforços e as boas intenções de muitos pesquisadores, mais de 70% das grandes pesquisas feitas hoje em dia nas grandes universidades são patrocinadas por grandes laboratórios!!

Eu, de minha parte, espero com sinceridade, que nosso mundo possa ir gradualmente crescendo, e que o poder bélico somado à demência atual não sejam destruidores a ponto de impedir isso.

A humanidade cresce como um feto abrigado no útero materno. Seu nascimento é difícil e está nas mãos daqueles que com coragem e sacrifício (os verdadeiros anjos) esforçam-se por auxiliar seu parto.

Anseio que um dia homens e mulheres possam amar o mundo, seus semelhantes, a natureza, e a vida como ela é: laboriosa, bela, simples e talvez, finita.
Fonte: Unipar- Universidade Paranaense