Cigarro se dissemina mais entre pobres e analfabetos

Estudos revelam relação entre cigarro, pobreza
e baixo nível de instrução. 71% dos fumantes no
Brasil ganham menos de R$ 1,3 mil.

As propagandas de cigarro sempre relacionam o tabagismo a pessoas bem-sucedidas e instruídas. Mas pesquisas mostram que o apelo da mídia nunca esteve tão distante da realidade dos fatos. Estudos do Banco Mundial e da Sociedade Brasileira de Cardiologia/Funcor mostram que o tabagismo é cada vez menor entre os ricos e cultos e que os fumantes se concentram cada vez mais entre pobres e analfabetos. Dos cerca de 1,1 bilhão de tabagistas existentes no mundo, 80% vivem em países em desenvolvimento.

A disseminação do tabagismo entre os pobres é tão preocupante que o tema escolhido pela Organização Mundial de Saúde (OMS) para ser debatido hoje, Dia Mundial sem Tabaco, foi Tabaco e Pobreza, um Ciclo Vicioso. Pela primeira vez o Brasil será a sede oficial das atividades da OMS, que incluem o lançamento do livro Considerações sobre Tabaco e Pobreza no Brasil e a Política Nacional de Controle do Tabagismo. A diretora da Iniciativa por um Mundo Sem Tabaco da OMS, Vera Luíza da Costa e Silva, assinala que o êxito do programa brasileiro de combate ao fumo foi um dos motivos pelos quais o País foi escolhido para sediar as comemorações.

De acordo com dados do Programa Nacional de Controle do Tabagismo do Instituto Nacional do Câncer (Inca), o consumo de cigarro no Brasil está caindo (veja quadro). Apesar disso, pesquisa da SBC/Funcor aponta que o País ainda tem 69,7 milhões de fumantes (39,2% da população). Mais de 70% deles (71,3%) ganham menos de cinco salários mínimos (R$ 1,3 mil) e não ultrapassaram a barreira do ensino fundamental. Realizada nos meses de março e abril, com metodologia do Instituto Vox Populi, a pesquisa ouviu 1,2 mil pessoas em 70 cidades e confirma a relação direta entre o tabaco e a pobreza.

A coordenadora do Programa de Combate ao Fumo da SBC/Funcor, psicóloga Sílvia Cury, explica que os pobres e analfabetos são mais vulneráveis ao vício por falta de informação, cultura e de perspectiva de vida. Ela explica que as campanhas contra o cigarro não têm o mesmo desempenho nessa parcela da população. “Normalmente a pessoa trabalha muito e não tem tempo para ver televisão. E quando assiste, não compreende a gravidade dos riscos aos quais está se expondo; não consegue avaliar adequadamente os prejuízos do cigarro”, comenta.

No entendimento de Vera Luíza Costa e Silva, o consumo cada vez mais freqüente de cigarro pelas pessoas pobres e de baixa instrução poderia ser minimizado se o País transformasse em lei a Convenção – Quadro para o Controle de Tabaco, celebrada em Genebra, na Suíça. Intermediada pelo ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, esse tratado determina, entre outras coisas, o aumento de impostos e do preço do cigarro, a proibição de patrocínio de empresas de tabaco em eventos esportivos, proibição de venda a menores e investimentos maciços em campanhas educativas.
Fonte: O Popular