Sobre casas e clínicas de recuperação

Precisamos nos deter mais na questão sobre o tipo de atendimento ao dependente químico e sua família quando recorrem a uma casa ou clínica de recuperação. Não passo uma tábua rasa sobre elas porque não conheço todas e seria injustiça atirar às labaredas instituições que lutam com a falta de recursos para fornecer um tratamento adequado. Mas a minha experiência diz que há instituições funcionando como autênticos hotéis de alta rotatividade de beira de estrada.

Se peso a pena quando abordo o tema é porque considero o problema muito sério. O desespero dos familiares e o descalabro espiritual do dependente só encontram paralelo no despreparo de quem os recebe. No papel, o programa é perfeito, imaculado, e a família tem a impressão de haver encontrado a casa de milagres que a livrará do vício.

Nem sempre isso acontece. Uma parcela destes centros parece albergues, asilos, hotéis. Sua função primordial, que seria recuperar o dependente, acaba sendo a de recuperar o caixa, não provendo o mínimo em termos de tratamento. Isso sem falar nos anúncios que prometem a cura do alcoolismo, por exemplo, em um dia, algo desprovido do mais ginasiano critério, como se a cura fosse um evento único, não um processo.

O indivíduo, o vocábulo denuncia, é indivíduo e como tal tem de ser tratado. Claro que normas e procedimentos internos têm de ser respeitados, mas a individualização do tratamento precisa ser contemplada. Há aspectos peculiares de um doente que merecem atenção. Tratamento uniforme, pouco – arrisco a dizer, nada – colabora para a recuperação.

Três aspectos necessitam ser contemplados: mente, corpo e espírito. O dependente está em total desiquilíbrio mental, sequer sabe o quão devastador foram seus dias de drogadição. Apresenta flashs obscuros, o padrão intelectual declina, perde a noção de que um dia pôde viver sem sua droga de escolha. Não compreende o quão afiado estava o fio da espada que lhe partia a mente. Ele precisa saber que a droga arrasou seu senso crítico e discernimento, mas que pode ser recuperado.

Cada caso é um caso, mas o organismo do drogadependente é transfigurado. Seja qual for a droga, o esboroamento das defesas orgânicas é visível. Um ex-dependente disse certa vez que o que o álcool provoca em um ano, a cocaína leva meses, e o crack, dias. O crack e a heroína, por exemplo, levam segundos até chegar à mente e queimar neurônios de forma irreversível. É pouco provável que não fiquem sequelas. Eles têm de ser observados mais apuradamente.

Finalmente, o que eu reputo mais importante, a alma do paciente deve ser trabalhada. Já relatei em editoriais anteriores que não acredito na recuperação sem acompanhamento religioso, seja ele qual for. O drogadependente necessita com urgência de um refrigério para que sua alma – abalada, estiolada, murmurante e em prantos – seja soerguida do mais profundo abismo em que estiver. A mão de Deus é fundamental. O louvor a Ele opera autênticas maravilhas.

É nessa tríade que eu me bato para que as casas de recuperação realmente recuperem corpo, mente e alma. O primeiro tem de ser desintoxicado, a segunda terá de ser cientificada de que não pode mais trilhar o caminho do pó ou do álcool, sob pena de ter um recaída feia, e a alma precisa ser lavada com um banho de louvor, carinho, entendimento e compreensão. E isso só Deus pode fazer.
Fonte: ABRAFAM