É possível estabelecer uma parceria entre pesquisadores e profissionais da saúde e a indústria do tabaco e de bebidas alcoólicas?

Ética é um ramo da filosofia que fundamenta científica e teoricamente a discussão sobre valores, opções, consciência, responsabilidade, o bem e o mal, o bom e o ruim, o moral. O principal problema ético na atualidade é decorrente da contradição. Portanto, do ponto de vista da ética, é muito difícil de entender como pode ser possível juntar sob a mesma missão dois grupos ou indivíduos com pressupostos opostos, contraditórios. Um exemplo: de um lado a indústria de tabaco, que tem como meta o lucro e portanto, aumentar o consumo de seu produto; de outro, um grupo de pesquisa em saúde, que tem como objetivo o bem estar comum, neste caso, diminuindo o uso de cigarros… Parece que este conflito de interesses é enorme e impossível de ser balizado.

Além do mais, voltando ao grupo de pesquisa em saúde, que coleta fatos, produz resultados com suas investigações, como poderia este abandonar a Ciência, as evidências?! Um exemplo: de um lado, os resultados dos levantamentos epidemiológicos entre estudantes brasileiros mostrando que nos últimos dez anos, jovens entre 12 e 18 anos têm aumentado o consumo de algumas drogas na vida, e que o padrão de uso abusivo, problemático, dobrou. De outro lado, a indústria de bebidas alcoólicas pagando muito caro por propagandas que massacram a população, indiscriminadamente. A epidemiologia, nesse caso, deve ajudar o redimensionamento da ética, mostrando que a viabilidade destes acordos é pouco provável!

Na Ciência quem dá o limite é a própria ética! Não se pode pesquisar sem saber para que se faz isso. É necessário restabelecer a ligação entre ética e pesquisa, entre autoridade política, consciência individual e coletiva. Lutar contra a falsa ética dessas indústrias, utilizando o limite ético da pesquisa.

?Beber com Moderação? é um mote cínico quando se constata a realidade, de que poucos indivíduos que já desenvolveram tolerância ou dependência, conseguem atingir este estágio de consumo. Realmente, é preciso moderação, prevenção, proteção, fundamentalmente, nas ações que visam o coletivo, estratégia que está na contra mão da política consumista do mercado. Sem esquecer que não estamos falando de um produto qualquer! Sua utilização aciona no cérebro um mecanismo de recompensa, isto é, o desejo de usar novamente e por vezes, abusivamente.

Pesquisa sem direcionamento ético pode ser comparada a uma roda que gira cada vez mais veloz, sem rumo e sem direção. A pesquisa, financiada pela indústria, tem sido baseada em acordos inescrupulosos, opostos à Ciência, como foi o caso dos achados relacionados ao cigarro de tabaco quanto ao desenvolvimento de dependência e outros problemas, que permaneceram sem divulgação até 1988. Ações sem qualquer virtude, sem qualquer reflexão!

Como é possível aceitar limites tão imprecisos e fazer uma parceria entre indivíduos tão diferentes, a começar pelos valores humanos mais essenciais? As diferenças são tão grandes, que a distância parece intransponível, desde a metodologia, os recursos financeiros investidos, a política, as estratégias, o poder e jogo de influências. Reorganizar a ética é a única saída! E bastaria utilizar dois de seus princípios básicos: a preservação da autonomia do sujeito, que acaba onde começa a necessidade da proteção daqueles que a perderam, os vulneráveis e os dependentes, o que tem somado, focalizada a questão do álcool, em torno de 30% da população!

É mínima a prevalência de usuários de tabaco que não desenvolvem dependência ao longo da vida, sendo esse um dos muitos problemas de saúde criados pelo seu uso. Um entre cada cinco usuários de álcool segue igual destino, infringindo danos variados não só a si como também a familiares e à sociedade como um todo.
Fonte: ABEAD