Manifesto contrário à propaganda de bebidas alcoólicas

Hoje, as várias formas de fazer propaganda em nossa televisão têm sido muito comentadas e avaliadas pela maioria dos indivíduos em nossa sociedade. Parte deste questionamento tem sido dirigido às propagandas de cervejas, elaboradas para influenciar os jovens. A qualquer preço, entre eles o preço de muitas vidas, o investimento nesta área tem feito muito barulho. O barulho das vítimas do álcool é que ainda tem sido muito pouco escutado, quase mesmo que abafado, pelos ?gingles? musicais ou por grandes carnavais.

De um lado, está o produtor que quer e precisa vender seu produto, ?aquele produto que desce redondo?, e que é também classificado pela Organização Mundial de Saúde, como um dos três responsáveis pelas mais altas taxas de mortalidade e morbidade no mundo (WHO, 2001; ONS, 1998).

Do outro lado estão adolescentes e crianças, ?alvos? destas propagandas, que acabam por ficar sem opção. Escolher livremente o que beber, comer, ou fazer, é um direito individual, mas que, inexoravelmente, remete cada indivíduo ao seu grupo, com suas normas e leis. Além destes fatores de proteção, às evidências da ciência.

A percepção do dano e o comportamento de risco entre os jovens estão longe das estatísticas! Levantamentos internacionais classificam a mortalidade brasileira entre as dez mais altas do mundo para os jovens de 15 a 25 anos (World Health Statistics Annual, 1995). Em um estudo na região metropolitana de São Paulo, entre 5.690 vítimas jovens de mortes violentas, metade apresentou dosagem de álcool no sangue positiva (Carlini-Cotrim et al., 1998).

Adolescentes têm uma característica normal e saudável do seu desenvolvimento que á a fase de experimentação. Para eles não é preciso insistir para experimentar. Mas o exagero na propaganda pode ser mais um fator incentivador de um comportamento altamente preocupante entre os jovens encontrado nas pesquisas: a taxa de adolescentes que se intoxicam, abusam, ou usam o álcool de forma pesada tem aumentado significativamente (Room et al., 1995; WHO, 1999; Hibell et al., 2000). Este dado também foi encontrado pelo Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas, o CEBRID em seu último levantamento (Carlini et al., 2001).

O jovem inicia o consumo de bebidas alcoólicas em casa e com amigos, antes mesmo de ter a permissão legal para consumir (Galduróz et al., 1997). Isto acontece em uma faixa etária precoce, antes que este jovem possa ter amadurecido sua capacidade de abstração para refletir, avaliar e optar (Rappaport et al., 1982). O jovem não tem a informação de que bastam duas doses de bebida alcoólica, como por exemplo, duas latas de cerveja; dois copos de chopp ou duas doses de destilados, whisky ou vodka sem ?chorinho?, ou dois copos de vinho, para que aumente consideravelmente os riscos e danos pessoais e coletivos (Mayo-Smith, 1998). Entre eles, o beber pesado e dirigir, tendo como conseqüência imediata o risco de acidentes fatais, ou a médio prazo, o desenvolvimento da dependência, que cuja prevalência encontra-se em torno de 11% no Brasil (Carlini et al., 2001).

Assim, a propaganda é um aspecto a ser considerado, pois as crianças e os jovens são influenciados por elas. Um estudo nacional sobre o impacto da mídia violenta no comportamento de crianças e jovens comprovou esta influência recentemente entre crianças brasileiras (Gomide, 2000; 2001; no prelo)

A responsabilidade social em encontrar soluções para todos estes problemas começa por considerar todas estas evidências.
Fonte: ABEAD