Álcool, Inalantes e Psicotrópicos: Negligência

Apesar do pouco destaque dado na imprensa ao consumo de inalantes (solventes, como cola de sapateiro, cheirinho-da-loló, lança-perfume), ele é muito comum entre os jovens brasileiros. Em 1997, 13,8% dos estudantes já haviam experimentado algum tipo de inalante. Essa realidade é observada desde a década de 1980 e em todas as regiões do país, mas as políticas públicas nacionais ainda abordam o tema de forma superficial.

Negligência ainda mais séria envolve o consumo de bebidas acoólicas. O álcool vem sendo, de longe, a droga mais consumida e a que gera mais problemas para a população brasileira. Um estudo realizado em Salvador (BA) observou que 37% dos motoristas envolvidos em acidentes de trânsito relataram estar sob efeito de bebidas alcoólicas. Além dos acidentes e problemas no trabalho, o álcool é responsável por mais de 80% dos casos de internações hospitalares por dependência. Um em cada 10 homens aproximadamente é ou já foi dependente de álcool. No entanto, as medidas preventivas e de controle são incipientes: há pouco rigor na proibição de venda para jovens e as informações sobre os riscos decorrentes do uso destoam do excesso de liberdade para as propagandas de bebidas alcoólicas.

Alguns estudos nacionais também denunciam a grave realidade relacionada ao uso de medicamentos psicotrópicos, como os ansiolíticos e as anfetaminas. Embora exista uma legislação abrangente e até mesmo burocrática, de controle da prescrição e venda desses medicamentos, estudos recentes indicam carência de fiscalização e descuido por parte de alguns profissionais de saúde (médicos e farmacêuticos), o que facilita seu uso excessivo e inadequado. Em 1999, um levantamento realizado em dois municípios do estado de São Paulo verificou falsificações em receitas de psicotrópicos, como numeração oficial repetida e até algumas emitidas por médicos que haviam falecido há anos, ou que tinham sido cassados. Também foram observados exageros de prescrição, como o caso de um médico que havia emitido cerca 8 mil receitas de psicotrópicos em 1999. Tais situações podem ser decorrentes da falta de formação profissional adequada, o que leva não só ao uso inapropriado de medicamentos, mas também a dificuldades para detectar e tratar usuários abusivos ou dependentes de psicotrópicos.
Fonte: Ciência Hoje