Efeitos duradouros da cocaína

O uso abusivo de cocaína interfere de forma direta em regiões frontais do cérebro. A droga, segundo demonstrou um estudo recém-concluído por pesquisadores do Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), age em áreas responsáveis pelo raciocínio, tomadas de decisões, emoções e personalidade humana.

A pesquisa avaliou 62 pessoas. Do total, 30 eram dependentes de cocaína e estavam internadas para tratamento no momento do estudo. O restante eram pessoas sem histórico de alterações psiquiátricas ou de problemas no desenvolvimento neuropsicomotor.

“Muito desses dependentes não apresentam uma alteração neurológica evidente. A alteração comportamental que nós detectamos é bem sutil. A disfunção frontal causa, por exemplo, uma retenção na velocidade de assimilação das informações” disse o psiquiatra Sergio Nicastri, um dos autores do estudo, à Agência FAPESP.

Segundo o neuropsicólogo Paulo Cunha, o outro autor da pesquisa que foi publicada na atual edição da Revista Brasileira de Psiquiatria, os problemas detectados pela pesquisa na área frontal do cérebro são duradouros. As relações entre cocaína e alterações no comportamento apresentaram significância estatística.

Grande parte dos pacientes que consomem cocaína em quantidades elevadas acaba se envolvendo com freqüência em atividades de risco, como brigas, sexo sem proteção, compartilhamento de seringa e transtornos de comportamento seja no ambiente familiar ou no trabalho.

Essa forte relação agora descoberta pelos estudos do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas (GREA) do Instituto de Psiquiatria da FMUSP, entre cocaína e alterações no cérebro, pode ajudar a explicar porque usuários de drogas continuam consumindo substâncias tóxicas mesmo depois de vivenciarem as conseqüências negativas de suas atitudes.

“O conhecimento a respeito de particularidades do funcionamento mental dos pacientes dependentes químicos poderá ajudar na seleção de técnicas de tratamento mais eficazes”, acredita Nicastri.

Para ele, no longo prazo, outra aplicação prática dessas descobertas pode ser o desenvolvimento de medicações. Novas substâncias poderão ser projetadas para se ligarem a receptores específicos de certas regiões frontais do cérebro. Esse caminho, de acordo com o pesquisador, poderia auxiliar bastante o paciente na retomada do funcionamento normal do cérebro.
Fonte: FAPESP