Mídia prejudica debate sobre drogas

BRASÍLIA – O debate sobre descriminalização do uso de drogas ainda está distante das redações de jornais brasileiros. A constatação pode ser feita a partir dos resultados da pesquisa Mídia e Drogas, que a Agência Nacional dos Direitos da Infância (Andi) divulgou ontem em Brasília. Realizada em parceria com o Programa Nacional de DST/Aids do Ministério da Saúde, o levantamento feito sobre uma amostra de 680 textos de 49 veículos do país, entre agosto de 2002 e julho de 2003, mostrou que 27% dos textos relacionam o uso de drogas à violência. Enquanto isso, só 3,5% das notícias analisadas discutiam o assunto sob o ponto de vista da saúde e da prevenção.

O seminário de apresentação da pesquisa foi aberto pelo diretor do Programa Nacional de DST/Aids, Pedro Chequer. Ele lembrou o início da epidemia de Aids e ressaltou o esforço feito pela imprensa nacional no sentido de limpar de preconceitos o noticiário sobre os portadores do vírus HIV.

Esperamos que a mídia avance em relação às drogas como avançamos em relação à Aids, disse Chequer.

O senador Jefferson Peres (PDT-AM) defendeu, como já fez em plenário, a legalização das drogas como única maneira de acabar com o tráfico.

A mídia tem boicotado este debate. Enquanto houver consumidores de drogas haverá fornecedores. Sempre houve e sempre haverá consumidores de drogas. Logo, enquanto houver proibição haverá narcotráfico.

O senador ressaltou, no entanto, que o Brasil não deveria tomar esta atitude isoladamente, mas defender a assinatura de uma convenção internacional neste sentido.

O procurador da República Carlos Eduardo Vasconcelos criticou o Código Penal, que permite progressão da pena ao homicida, mas não ao traficante. A comentarista de TV e candidata a vereadora em São Paulo Soninha Francine lembrou que a imprensa parece dar mais destaque aos crimes ligados ao narcotráfico.

Violência doméstica não dá Ibope. Tráfico de madeira e trabalho escravo têm muito menos mídia, observa.

O documento da Andi diz que, ao noticiar mais o uso da droga vinculado à violência, a imprensa contribui para reduzir o debate a um enfoque proibicionista.

Não admira que assim a sociedade demande sempre medidas repressivas, comenta o cientista político Guilherme Canela, que analisou os dados. Continuando, ele mostrou que, das matérias que enfocam a violência, 49% mostram o usuário de drogas como agressor, enquanto 17% o colocam como vítima.

Pesquisas mostram que não há razão para acreditar que o usuário seja mais violento que outros grupos.

De positivo, os analistas da Andi ressaltam o enfoque dado pelos veículos destinados aos jovens. A amostra incluiu 85 textos do segmento. Além de publicar textos mais bem contextualizados, voltados para a saúde e o uso, a mídia jovem ouve usuários de forma positiva (24% contra 6% das demais publicações).
Fonte: JB OnLine