Os vícios e os pensamentos viciados

Uma barreira fundamental encontrada nas discussões sobre drogas, e às vezes nos próprios atendimentos, está num sentimento muito concreto de superioridade que nós, os “caretas” ou “limpos” ostentamos ante os usuários. Fatos ocorridos num abrigo para meninos de rua ajudam a ilustrar o quanto, muitas vezes, pretende-se combater um vício com outro.

Era ano de eleições municipais e a Prefeitura havia resolvido instalar, no ano anterior, o primeiro abrigo para meninos de rua da região, num bairro de classe média, à beira da linha do trem. O abrigo era freqüentemente visitado por pessoas da vizinhança interessadas em se aproximar da instituição e em desenvolver trabalhos voluntários com os meninos em oficinas de artesanato, oferecendo palestras sobre religião, ou simplesmente dispostos a conversar. Mas esse não era o clima predominante.

Uma parcela aguerrida e barulhenta da vizinhança fazia forte oposição à permanência do abrigo ali e boa parte de seus argumentos dizia respeito às drogas. Segundo alguns, a existência de tal envolvimento, realmente comum entre meninos de rua, seria péssima influência para o bairro e isso motivou denúncias, reuniões e uma vigilância tão acirrada que até mesmo um candidato a prefeito dignou-se a colocar uma câmera de filmagem em frente ao abrigo, na tentativa de captar algum fato significativo. Daquela época, dois fatos ficaram especialmente gravados.

O primeiro foi a pergunta dirigida a um educador por um dos meninos internos do abrigo numa das muitas noites em que viam pela janela, próximo ao muro da linha do trem, um grupo de adolescentes bem vestidos, aparentando serem de classe média, alguns deles moradores na vizinhança, fumando maconha. Os meninos do abrigo viviam o auge dos conflitos com a vizinhança e um deles perguntou: “Por que eles podem e nós não?”. Ficou claro que ele percebia que, mesmo ante as evidências de que as drogas são sintoma encontrado em todas as classes sociais, havia dois tipos de moral na sociedade: uma, mais compreensiva e tolerante, para as pessoas de bens, outra, intolerante e odiosa, para os sem posses.

Mas a intolerância e a dubiedade ficaram ainda mais evidentes com o segundo fato, uma gravíssima denúncia que veio a público: dentro do abrigo, funcionários adultos estariam se drogando ostensivamente, e na frente dos meninos. Foram forçados, à época, a apresentar a psicóloga que, diabética, necessitava se auto-aplicar insulina quando tinha crises de hipergli-cemia. Foram chances preciosas de aprender sobre a vida e sobre as drogas.

A primeira questão a ser enfrentada por qualquer pessoa que queira lidar a sério com a questão da drogadição é o próprio conceito de droga. A noção mais corriqueira, de que droga é qualquer substância psicoativa que cause alteração no comportamento quando colocada no organismo, mostra-se muito precária, pois são raras as substâncias realmente inócuas que ingerimos no dia-a-dia. São conhecidas as influências de substâncias nunca relacionadas como drogas, como a própria insulina, a adrenalina, os hormônios, o açúcar, o chocolate, a cafeína, e muitos outros alimentos, que sabemos atuar como calmantes, estimulantes etc. E não há quem não os use.

Usado como droga

O que seria droga, então? O que entra pela boca do homem, ou o que cada indivíduo busca com as substâncias que ingere? A droga não é um mal em si, e o prazer, muito menos. O verdadeiro vício parece ser essa busca pelo atalho, pelo prazer imediato, pelo mundo das sensações, vividos pela superficialidade e a qualquer custo. Tomar os meios pelos fins, dando peso máximo às atividades imediatas e concretas é caminho certo para uma enorme frustração e para um profundo vazio existencial. É uma simplificação brutal da vida buscada por não se conseguir ou não se querer suportar a tensão de construir algo, responsabilizando-se por alguma coisa ou por alguém, empenhando-se no autoconhecimento e na descoberta do outro. É, especialmente, a fuga da tensão que existe na interinfluência de todos esses desafios fundamentais. Essa simplificação é também a base do fanatismo, dos preconceitos, das violências, das dominações e das dependências. Mas constitui hoje o fundamento de uma atitude pregada a todos pela cultura pós-moderna.

Se isso for verdade, uma grande influência para o abuso de drogas será encontrada na publicidade, no consumismo confundido propositadamente na publicidade com amor, felicidade, saúde, alegria – e na falta de continência afetiva nas escolas, nas famílias e nas relações em geral. Desta forma, qualquer programa para combater eficazmente as “drogas” precisará de muito mais do que apenas campanhas informativas, repressão ao tráfico e palestras emocionadas de ex-usuários.

A escola, a família e a sociedade que embasarem seus projetos e ideais apenas na conquista material e no prazer imediato estarão, inevitavelmente, sendo muito mais influentes para a dependência de drogas do que o farmacêutico que vende remédios psicoativos sem receita, ou o comerciante de material de construção que vende cola de sapateiro sem cadastrar o comprador, ou o dono de bar que vende bebida alcoólica para crianças e jovens, ou, ainda, do que a sociedade que tolera a propaganda de bebidas e cigarros, e mais até do que o próprio traficante.

Por outro lado, somente o indivíduo e o grupo social cujos integrantes basearem suas relações centrando projetos individuais e coletivos em objetivos como a descoberta de si e do outro e na busca de auto-realização a partir do desenvolvimento de potenciais próprios e alheios, sem se iludirem com atalhos, poderão desenvolver a tolerância e a flexibilidade para superar adversidades e tensões inevitáveis no processo evolutivo.
Fonte: Revista Viver-Psicologia