Porque falar sobre drogas?

Ao longo do ano passado, participei da criação de um programa de TV para discutir a questão das drogas com os jovens. Foram mais de 15 meses de trabalho, com a colaboração de uma centena de profissionais para tentar encontrar o modo mais adequado para falar de um tema que desafia especialistas do mundo todo e que, até hoje, é difícil de tratar de maneira equilibrada.

Mesmo no consultório, cara a cara com quem experimenta ou está usando algum tipo de droga, o diálogo é, muitas vezes, sinuoso.
Qual o melhor jeito de abordar essa questão quando se sabe que qualquer pessoa pode facilmente entrar em contato com (e fazer uso de) uma droga?

Por um lado, não se pode adotar um discurso moralista, proibitivo, que não explica nem informa. O que se descobre é que slogans não dão conta do recado. Por outro lado, não dá para adotar um tom liberal e irresponsável. Não se pode abrir mão da qualidade da informação, de explicar os riscos envolvidos no consumo de drogas e de mostrar que cada um é responsável pela sua decisão.

Parece lógico que, quanto mais informadas as pessoas estiverem, melhor será a decisão que elas poderão tomar. Só que, quando a gente fala de comportamento humano, a informação é só o primeiro degrau. O jeito como anda a nossa cabeça, o grupo que nos cerca, a família que temos, o mundo de hoje, tudo isso pesa.

Droga mais perto!

Quem nunca ouviu um amigo, um colega de escola, ou até mesmo alguém da família falando sobre drogas? Muitos, inclusive, já viram em sua frente um comprimido, um inalante ou mesmo um cigarro de maconha. Isso sem falar nas drogas lícitas (que não têm a venda proibida para maiores de 18 anos), que são o álcool e o cigarro.

Uma pesquisa realizada pelo Cebrid (Centro Brasileiro de Informações Sobre Drogas Psicotrópicas), da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), feita com mais de 15 mil estudantes de ensino fundamental e médio de dez capitais do Brasil em 1997 revela alguns resultados impressionantes.

Por exemplo: 25% dos estudantes já experimentaram alguma droga (exceto tabaco e álcool) na vida. Isso quer dizer que de cada quatro jovens que estão na escola, um já experimentou, pelo menos uma vez na vida, algum tipo de droga.

Os solventes vêm em primeiro lugar, seguidos por maconha, ansiolíticos (calmantes), anfetaminas e cocaína. De 3% a 5% dos jovens fazem uso freqüente (seis ou mais vezes no mês) de alguma substância ilícita.

Essa pesquisa foi feita antes da disseminação das drogas sintéticas (“club drugs”) na noite das grandes cidades. Hoje, ecstasy, quetamina, GHB, ice e outras do mesmo time também estão mais próximas dos jovens.

Mas esse não é um fenômeno só daqui. Dados do CDC (Centro de Controle de Doenças) dos Institutos Nacionais de Saúde, em Atlanta (EUA) mostram que, apesar da idade legal para beber nos EUA ser 21 anos, 79% dos estudantes de ensino médio já experimentaram bebidas alcoólicas ao menos uma vez e um quarto deles relatou usar drogas com freqüência. Os adolescentes respondem por 25% de todo o álcool consumido nos EUA.

O uso de drogas sempre foi marcadamente masculino. Mas, nos últimos anos, o consumo entre garotas também cresceu. Na pesquisa do Cebrid, maconha, solventes e cocaína são drogas mais usadas por garotos. Ansiolíticos e anfetamínicos (remédios para emagrecer) são mais usados pelas mulheres. Nos EUA, em 1999, uma Pesquisa Nacional sobre Drogas ouviu mais de 25 mil jovens de 12 a 17 anos e descobriu que 16% das garotas e 16,7% dos garotos tinham experimentado alguma droga.

Fase de risco

A adolescência é uma fase de mudanças. Toda mudança gera alguma angústia. Insegurança, timidez e problemas com auto-estima podem fazer com que o jovem procure algum tipo de droga. Muitas vezes, ele não consegue perceber que conversar, fazer amigos e aprender a superar seus limites podem ser caminhos muito mais criativos para lidar com as dificuldades.

Nessa fase, a descoberta de possibilidades, a curiosidade, a inquietação, a pressão do grupo, tudo isso também pode trazer a ilusão de que drogas podem abrir novas portas. Mas será que é preciso mesmo experimentá-las?

As pesquisas, dados e opiniões de especialistas apontam para conclusões comuns quando falam do contato dos jovens com as drogas: se você não experimentou drogas, tente manter essa postura. A maior parte dos jovens ainda não fez isso também. Não é ruim você não ter tido essa experiência. Na adolescência, o risco de alguém que experimenta drogas se tornar um usuário freqüente é maior do que na vida adulta.

Quem já experimentou e continua usando eventualmente precisa prestar atenção ao impacto que a droga está produzindo em sua vida, além das complicações legais por causa do uso de substâncias proibidas.

Às vezes, sem perceber, um usuário eventual de maconha, por exemplo, pode ter sua atenção e seus reflexos comprometidos e se colocar em situação de risco quando dirige um carro ou mesmo quando atravessa uma rua. No caso do álcool e das drogas, a repercussão também pode ser bem complicada na vida do adolescente.

Para quem está usando com freqüência é importante buscar a ajuda de um terapeuta para entender como o padrão de consumo pode comprometer a vida. Quem está dependente não deve perder tempo e precisa de apoio imediato.
Fonte: Folhateen