As conseqüências do alcoolismo feminino

Desde que a mulher começou a sair de casa para trabalhar, logo após a segunda guerra mundial, temos observado um crescente aumento do número de mulheres dependentes químicas do álcool.

O contexto da ingestão alcoólica, nas mulheres, é diferente ao dos homens. Elas começam a beber mais tardiamente, sofrem mais repressões sociais e culturais, escondendo o hábito e sentindo-se envergonhadas e culpadas. Bebem, ao contrário dos homens, isoladas em casa.

As mulheres no climatério, período que se inicia por volta dos 40 anos, estendendo-se até os 65 anos de idade, tornam-se alcoolistas devido à baixa auto-estima, quadros de desestruturação familiar, influência do marido e até depressão. Tanto o alcoolismo pode gerar depressão, quanto a depressão pode ser uma das possíveis causas do uso abusivo ou dependência alcoólica.

As mulheres têm maior distribuição de gordura e menor quantidade de água corpórea, sendo mais suscestíveis aos efeitos do álcool, quando comparadas aos homens. Estima-se que a intoxicação das mulheres ocorra com metade da dosagem dos homens.

Recentemente, além das questões psiquiátricas envolvendo o gênero feminino, muito valor tem se dado às repercussões do alcoolismo feminino nos aspectos ginecológicos e obstétricos.

Álcool e menstruação

As interações entre o alcoolismo e o ciclo menstrual podem ser analisadas por dois aspectos:

– As diversas fases do ciclo menstrual interferindo no padrão de consumo
– Os efeitos do álcool sobre o ciclo menstrual.

Alguns estudos demonstram que, na 2ª fase do ciclo menstrual, conhecida como fase lútea, há um aumento da ingestão de álcool. Provavelmente aqui, o álcool seria utilizado para diminuir a ansiedade. Porém, como sempre ocorre na ciência, tal hipótese é contestada por outros autores e os dados são controversos e polêmicos.

Já os efeitos do álcool sobre o ciclo menstrual, possuem dados mais consistentes. O consumo de álcool diminui a função da hipófise – glândula cerebral, com uma menor secreção do hormônio luteinizante (LH). Isso resulta em uma maior freqüência de ciclos anovulatórios (ausência de ovulações). Na prática clínica, observo que muitas mulheres alcoolistas têm amenorréia (não menstruam), abortamento espontâneo, menopausa precoce, infertilidade e prejuízos do desenvolvimento fetal.

Alcoolismo na gravidez

Mesmo concentrações pequenas de álcool, ao redor de duas latinhas de cerveja, já causam danos ao feto. O consumo de álcool entre as gestantes é mais comum do que se pensa. Nos EUA, estima-se que anualmente 65% dos fetos sejam expostos em graus diferentes ao álcool.

No Brasil, ainda faltam dados epidemiológicos. Até mesmo médicos experientes, acabam não perguntando, de forma adequada, sobre o uso, abusivo ou não, do álcool na gestação.

O álcool ingerido pelas gestantes atravessa a placenta e o feto recebe as mesmas concentrações da mãe. Porém, não podemos nos esquecer que os processos de metabolização e eliminação fetal são mais lentos, ou seja, os prejuízos fetais são muito mais significativos.

As seqüelas fetais dependem de vários fatores, como os hábitos de vida da mãe, a quantidade ingerida e os aspectos metabólicos, tanto fetais quanto maternos. Os antecedentes familiares e pessoais são igualmente importantes. Filhos de mães com essas características têm uma chance maior de desenvolverem a Síndrome do Alcoolismo Fetal (SAF), um distúrbio que afeta, segundo a Organização Mundial de Saúde, doze mil bebês por ano.

As crianças com a SAF apresentam peso abaixo da média, lesões cerebrais e má formação congênita que afetam coração, boca, rins, olhos e até genitais. Há sérios prejuízos cognitivos, ou seja, tais crianças vão apresentar grandes dificuldades de aprendizado, desenvolvimento e adaptação ao mundo.

Portanto, além de todos os aspectos psicológicos e sociais envolvidos no alcoolismo feminino, não podemos nos esquecer das esferas ginecológica e obstétrica.

O grande alcance e repercussão, deveria não só expor o problema, como também desenvolvê-lo e aprofundá-lo com maior amplitude e precisão. O objetivo social seria mais eficaz, com propostas concretas de combate ao problema.
Fonte: UOL