Traficantes desafiam polícia e mantêm comércio de drogas na Tiradentes

Um sujeito cabeludo caminha com um saco de supermercado na mão, acompanhado por uma moça. Estão na Rua São Francisco, no Largo da Ordem. É terça-feira, dia 17 de agosto, 20h50. Circulam de um lado para outro, até que são abordados por dois jovens, malas de colégio debaixo do braço. O quarteto conversa, anda sem preocupação e pára, quase na esquina com a Rua Barão do Serro Azul. O cabeludo tira uma porção de pedras de crack da sacola e põe na palma da mão. De pronto, um dos moleques – uns 18 anos – guarda a droga no bolso. O colega paga. Não se sabe quanto, mas o preço de mercado é R$ 3,00 a pedrinha. A mulher põe o dinheiro numa pochete. O cabeludo anota o fluxo de caixa numa caderneta. O casal vai para um lado. Os garotos vão para outro. São 20h53.

Essa história foi flagrada sem dificuldade do alto de um prédio da região. Não foram necessários muitos minutos de espera. Só que, para perceber a ação desde o início, foi preciso a ajuda de três pessoas que ganham a vida no local há vários anos. Com mais alguns depoimentos, foi possível traçar um mapa de como funciona a criminalidade local, do ponto-de-vista da comunidade.

Todos tinham pequenas informações, que se ligavam a outras, que davam uma dimensão geral de como a droga circula pelas proximidades, e com ela assaltos e outros delitos. Como lição, mostraram que o crime não desaparece, apenas muda de forma. Se a polícia fica na rua até às 22 horas, ele começa às 22h30. Se há mais PMs em determinada rua, ele migra para outra.

O ponto forte do tráfico de crack na região está em frente à Catedral Basílica de Nossa Senhora da Luz de Curitiba, no miolo da Praça Tiradentes. É o que dizem moradores de prédios das redondezas, mas esses se negam a ter a identidade revelada. O motivo é óbvio: os traficantes promovem à risca a “lei do silêncio”, amedrontam quem quiser se intrometer no seu cotidiano. Apesar do comércio desse tipo de droga não ser tão organizado e movimentar tanto dinheiro quanto o de cocaína, por exemplo, há distribuições claras de tarefas. Existem as “mulinhas”, que carregam e vendem as drogas, os “tesoureiros”, que cuidam do dinheiro, os “fiscais”, que cuidam do bom andamento das operações, e os “patrões” ? que dispensam comentários.

Mesmo sendo a maioria dos envolvidos pouco instruída, todos sabem que o serviço precisa de discrição. E os cuidados para evitar qualquer ação que os prejudique são claros, principalmente quanto a fotos e filmagens. No dia 13 de julho, o repórter fotográfico Jorge Woll, da Gazeta do Povo, fazia fotos da praça, também em busca de algum flagrante de tráfico, e quase perdeu a câmera. Foi abordado com violência por um rapaz e só se livrou da encrenca dizendo que as fotos eram apenas gerais da Tiradentes, não de qualquer atitude dele ou de seus colegas. A Gazeta do Povo publicou uma reportagem sobre o comércio de drogas nas redondezas no dia 14 de julho, denunciando o movimento de traficantes e usuários. O policiamento foi reforçado, mas o crime ainda domina a região.

Os responsáveis por um hotel das redondezas sabem bem disso. Segundo um dos funcionários do local, durante um entardecer em que um dos hóspedes subiu ao terraço para fazer fotos, tendo como paisagem a Catedral. “Os traficantes perceberam e ficaram bravos, vieram tomar satisfações, acharam que era foto para jornal”, diz ele, que pediu mais de cinco vezes para que nem o hotel nem ele fossem identificados. Como retaliação, a portaria do prédio amanheceu apedrejada.

Às escuras, o esquema flagrado em fotos poderia passar em branco para um repórter que foi até lá com conhecimentos básicos da região para tentar registrar uma cena de tráfico, tão denunciada pela população. Como passou de maneira corriqueira para os cerca de oito policiais militares que faziam, em duplas, o patrulhamento da Praça Tiradentes e Largo da Ordem no momento em que os traficantes agiam. “Hoje tá tranqüilo. Precisa ver a zoeira que os caras fazem no fim de semana, ou pior, como era lá por 1998”, diz o vigia Daniel de Lima Sanches, 34 anos. Ele trabalha desde 92 na região e diz que já viu de tudo. Assim como colegas de serviço e comerciantes próximos, elogia o aumento no número de PMs que cuidam da área nos últimos dias, mérito da Operação Polícia na Rua, promovida pela Secretaria de Estado de Segurança Pública (Sesp).

Pela experiência que tem na região, ele diz que a presença da Polícia Militar é útil, ameniza a violência, mas não é capaz de acabar com o tráfico. A opinião é a mesma do empresário Rodrigo Iazetta, 27 anos. O paulistano dirige uma escola de informática no Largo da Ordem. “Aqui não tem nem comparação com São Paulo, onde a violência é muito maior mesmo nos bairros mais seguros. Só que um bom exemplo que eles têm lá é a P2 (correspondente ao serviço secreto da PM paranaense), que tem espaço para fazer mais investigação”, cita. “Sem informação o cara não consegue chegar ao verdadeiro bandido, acabar com o esquema grande.” O serviço de investigação, na verdade, é de responsabilidade da Polícia Civil. A instituição, entretanto, enfrenta problemas de contingente, tem atualmente 3,3 mil agentes na ativa, número similar ao da década de 80. E sem gente para investigar na rua, o diálogo com a comunidade é um dos meios mais indicados para baixar os índices de criminalidade. E, na região do Largo da Ordem e Praça Tiradentes, parece haver pessoas suficientemente dispostas para isso. Mesmo com o medo.
Fonte: Tudo Paraná