Investigação liga agente da Abin ao tráfico

Um homem identificado como agente “S”, araponga da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), está sendo acusado de chefiar uma quadrilha que trafica drogas no Ceará.
Uma roda de amigos, uma praia paradisíaca e uma festa particular pode ser cenário não apenas der diversão, mas também de negócios ilícitos. Entre os amigos, um político estadual, empresários da Capital, um empresário italiano, um agente da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) do Ceará. Além de consumir cocaína, eles estariam também traficando.

Há mais revelações nebulosas e perigosas ligadas à morte do espião Raimundo Alves Ferreira Filho, 39, um informante da Abin que cometeu suicídio depois de denunciar que estaria sofrendo ameaças. Raimundo denunciou à Polícia Federal que esse mesmo agente da Abin, o agente “S”, para quem trabalhava, teria bisbilhotado o dia-a-dia de políticos locais (o prefeito Juraci Magalhães, seu filho Magalhães Neto e o ex-senador Sérgio Machado), através de escutas telefônicas clandestinas. Há um inquérito na PF sobre o caso. Os novos lances dessa investigação citam os personagens e a situação acima, que teria ocorrido na praia de Jericoacoara em 2001.

O jornal O Povo optou por não revelar os nomes dos participantes da dita festa particular porque a investigação está em andamento. Não há, ainda, denúncia formalizada à Justiça pelo Ministério Público. Os novos detalhes envolvendo o agente “S” estão descritos em novos documentos a que o jornal teve acesso com exclusividade.

Há outros episódios descritos pelo informante Raimundo envolvendo o agente “S” e o tráfico de drogas. Na rodovia que liga Fortaleza a Croatá, o homem da Abin teria abortado um carregamento de cocaína que era transportado debaixo de gelo e camarão, vindo de Jericoacoara. O agente teria descoberto que a carga seria interceptada por policiais federais e rodoviários e conseguiu alertar os traficantes (inclusive um estrangeiro) envolvidos no deslocamento da droga.

Nesta operação, para evitar vazamentos, a PF acionara agentes de Brasília. Mas não adiantou. A equipe de policiais aguardava, na rodovia Estruturante (CE-085), por um veículo tipo furgão, onde deveria estar a cocaína. Quando o caminhão passou, foi parado no posto rodoviário, segundo Raimundo – que contou ter integrado aquela equipe que faria o flagrante. No veículo havia o isopor com gelo e camarão, mas nada da droga. O informante relatou na PF que o agente “S” havia surgido na estrada naquela noite (era por volta das 22 horas, segundo o depoimento). Raimundo deduziu, para a PF, que “S” pode ter alertado da barreira policial.

O informante foi depor na PF nos dias 25 de fevereiro e 8 de abril de 2002 e morreu em 26 de maio de 2003, mesma data em que foi aberto o inquérito para apurar a responsabilidade criminal do agente “S” (com o tráfico de entorpecentes e com os grampos telefônicos). Raimundo teria tomado “chumbinho”, veneno barato usado para matar ratos. Denunciou as ameaças de morte e chegou a ser espancado em público, no dia 29 de março, supostamente porque sabia demais.

No seu atestado de óbito, consta morte por “causa indeterminada”. Seu corpo está enterrado num jazigo do cemitério público de Nova Russas, a 338 quilômetros de Fortaleza. Os desdobramentos dessa história continuam sob investigação. A Polícia Federal não se manifestaria sobre o caso.

Perguntas sem respostas

1. Quem teria mandado grampear os telefones do gabinete do prefeito de Fortaleza Juraci Magalhães, seu filho Antonio Magalhães Neto, e os telefones do ex-senador Sérgio Machado (PSDB), como denunciou o informante da Abin, Raimundo Ferreira Alves Filho?

2. O que teria motivado a escuta a esses três políticos?

3. Por que Raimundo Ferreira Alves Filho teria procurado, em 2002, o deputado Sérgio Benevides (PMDB), acusado de desvio da verba da merenda escolar na rede de ensino de Fortaleza, para informá-lo sobre os grampos clandestinos nos telefones do prefeito Juraci Magalhães, Magalhães Neto e do ex-senador Sérgio Machado?

4. Por que a Abin/Ceará, sabendo das acusações contra o agente “S”, ainda não o afastou das funções na Agência no Ceará enquanto acontecem as investigações?

5. Por que a Abin em Brasília ainda não tomou providências em relação ao que está acontecendo no Ceará? Há algum procedimento administrativo ou sindicância em curso na Abin/Ceará?

6. Por que os depoimentos sobre o caso, citando o agente “S” da Abin/Ceará em prováveis ações criminosas, foram colhidos a partir de 2000 e o inquérito só foi aberto em 26 de maio de 2003, data que coincide com morte do informante Raimundo Alves Filho?
Fonte: Terra