Cobertura da imprensa sobre drogas nem sempre condiz com a realidade

Pesquisadores constataram que os psicotrópicos mais citados nos artigos não são os mais utilizados pela população.

O assunto “drogas” é abordado constantemente em diversos meios de comunicação do país, inclusive, em jornais e revistas. Por envolver uma série de questões que vão além da saúde formal, como por exemplo, tráfico, delinqüência e violência, o tema atrai a mídia, passando a fazer parte de seu agendamento. Contudo, não há homogeneidade, e, muitas vezes, não há correspondência com a realidade, naquilo que os meios de comunicação veiculam a respeito dessa questão. Isso é o que mostra um estudo realizado, por pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

De acordo coma artigo publicado na edição de jan./fev. de 2003 da revista Cadernos de Saúde Pública, “a população recebe, pelos meios de comunicação, informações contraditórias em alguns aspectos, principalmente, no que diz respeito ao conjunto de informações sobre “drogas ilícitas” (maconha, cocaína, entre outras) em comparação às “lícitas” (álcool e tabaco)”. Segundo os pesquisadores, ao mesmo tempo em que a população recebe informações sobre o perigo das drogas ilícitas e a violência atrelada ao seu consumo, ela é alvo de propagandas para estímulo da venda de bebidas alcoólicas e de cigarros. “Nesse contexto, esses grupos de “drogas”, semelhantes em vários aspectos farmacológicos, passam a ser encarados de modo distinto pela opinião pública, gerando posturas extremamente incoerentes sob a ótica da saúde”, afirmam no artigo.

Nesse sentido, a equipe resolveu analisar as informações veiculadas, nos principais meios de comunicação escrita no Brasil, sobre a saúde relacionada ao uso de drogas. Os jornais e revistas selecionados foram: Estado de São Paulo, Folha de São Paulo, Jornal do Estado (Curitiba – PR), O Povo (Fortaleza – CE), A Crítica (Manaus – AM), Veja, Isto É, Criativa e Época. O levantamento dos artigos foi conduzido por uma empresa especializada em Clipping. Depois de selecionados, 502 artigos foram submetidos à análise de conteúdo detalhada.

Segundo a equipe, “cerca de um terço das manchetes não mencionava nenhum psicotrópico em especial, utilizando termos gerais como “drogas”, “tóxicos”, “vício”. Nos outros dois terços, o tabaco foi o psicotrópico destacado com maior freqüência (18,1%), seguido dos derivados de coca (9,2%), maconha (9,2%), álcool (8,6%) e anabolizantes (7,4%)”. Um dado importante é o de que algumas drogas, que são usadas com freqüência, terem aparecido muito pouco nas manchetes e em número menor do que outras que são menos usadas no Brasil.

Com relação às matérias, os pesquisadores observaram que a maior parte ocupava o espaço de um quarto de página, e que as principais fontes foram os depoimentos de profissionais e especialistas na área de estudo e as pesquisas científicas. Além disso, eles verificaram que “para os psicotrópicos, tanto lícitos como ilícitos, a maioria dos artigos privilegiou os prejuízos decorrentes do uso (80,3%)”. A exceção foi a maconha: mais da metade dos artigos falavam sobre os benefícios que ela pode trazer.

A principal conseqüência para a saúde mencionada foi a dependência, enquanto o principal benefício citado foi o uso terapêutico, principalmente, no que dizia respeito à maconha. Já a intervenção mais freqüentemente citada, como alternativa para lidar com o uso indevido das drogas, foi o tratamento, seja ele através de internações ou do uso de medicamentos. A legislação, a repressão e a prevenção, de acordo com os pesquisadores, também mereceram destaque nos artigos.

Outro ponto importante, segundo eles, diz respeito à isenção das matérias: “embora os jornalistas escrevam textos aparentemente isentos, é notória a tendenciosidade dos temas abordados. Essa ênfase se torna mais evidente nos textos elaborados por outros profissionais e/ou especialistas, os quais incluem seus julgamentos pessoais, retratando a situação de forma alarmante”.

Com relação às matérias que abordavam uma droga específica, a equipe constatou dados importantes. Naquela sobre cigarros e bebidas alcoólicas, foram freqüentemente citados os danos e os prejuízos que essas drogas podem causar, assim como as possibilidades de tratamento existentes. Nos artigos sobre os derivados de coca e os anabolizantes, os pesquisadores observaram menções aos seus danos e conseqüências e sobre o aumento de seu consumo.

A cobertura dos meios de comunicação sobre duas drogas, em especial, chamou a atenção da equipe. A primeira foi sobre a heroína, devido ao fato de 10 das 15 matérias que mencionavam a droga terem sido publicadas em um mesmo mês, e terem apontado uma suposta explosão do seu uso no Brasil. A segunda foi sobre a maconha, pelo fato, já mencionado, do conteúdo relacionado a ela ter sido muito diferenciado dos demais já que em grande parte das matérias, a maconha foi apresentada como uma droga relativamente segura ou até mesmo benéfica, quando usada como medicamento.

Sobre esse ponto, eles explicam que o noticiário sobre psicotrópicos parece sofrer ciclos de tolerância versus intolerância, que variam de acordo com o contexto histórico e social. Ou seja, em determinadas épocas, algumas drogas são mais aceitas pela população do que outras.

Além disso, eles ressaltam as divergências existentes entre a cobertura da mídia sobre o assunto e os indicadores epidemiológicos. Drogas menos consumidas aparecem com mais freqüência do que outras mais utilizadas. “Embora não seja possível estabelecer a freqüência ideal de artigos, ao menos seria esperado que houvesse uma distribuição mais equilibrada, compatível com os indicadores epidemiológicos”, explicam no artigo.

Nesse sentido, a equipe também sugere uma maior sinergia entre a mídia e as políticas de prevenção: “torna-se essencial o estabelecimento de parcerias entre os profissionais interessados, em particular jornalistas e especialistas em prevenção ao uso indevido de drogas, para que se possa abrir debate sobre a questão”.
Fonte: ClicNews