Proibidos de votar pelo tráfico

Traficantes restringiram o direito ao voto de moradores das favelas de Parada de Lucas e de Vigário Geral, ontem à tarde. A ordem dos criminosos era para fecharem, a partir do meio-dia, as seções de duas zonas eleitorais: 162ª e 176ª. A determinação não foi cumprida, mas vários eleitores, com medo, preferiram não votar. De acordo com a Polícia Militar, os bandidos não querem que a população circule pela região à tarde e à noite, devido à guerra iniciada sábado, depois que criminosos de Lucas invadiram Vigário Geral.

Devido ao “toque de recolher”, pedestres foram impedidos de circular pelas ruas e passarelas que ligam as favelas ao asfalto. No viaduto entre a Avenida Bulhões Marcial e Vigário Geral, a barricada de lixeiras armada na madrugada de sábado continuava intacta.

Moradores ainda estão fora de suas casas

Devido ao confronto entre os traficantes, vários moradores estão fora de casa. “Estou vagando desde ontem, como um mendigo, sem comer, sem ter onde dormir e com a roupa do corpo. Meus três filhos e minha mulher estão lá dentro sem conseguir sair, e eu não posso entrar para pegar meus documentos e votar”, disse um pedreiro, 32 anos, que não se identificou.

Na Praça Catolé do Rocha e em ruas próximas, a situação de dezenas de moradores era a mesma. De manhã, muitos saíram de Vigário Geral com sacolas de roupas e eletrodomésticos. “Os bandidos, vestidos de preto, estão entrando nas nossas casas e roubando tudo. Levaram tênis, casacos e até mandaram fazer pipoca no microondas. A polícia nem aparece e estamos sendo obrigados a deixar o que conseguimos juntar para trás”, criticou outro morador, de 35 anos. A maioria das casas invadidas fica nas ruas Tupi, Vieira, da Paz, Sete e Dez.

O comando do 16º BPM (Olaria) informou que faz rondas na área, mas não montou operação especial nas favelas. Na Escola Casinha Feliz, que fica na Rua Porto Príncipe e serviu como local de votação, em Vigário, havia duas patrulhas da PM. Segundo a coordenadora dessa Zona Eleitoral, Núbia Adriana, o reforço foi pedido pela juíza Sandra Santarém.

No local, votam mais de 400 eleitores, mas, até o início da tarde, o movimento se limitava a 30% do normal. Outros pontos ameaçados pelo tráfico foram o Clube União e as escolas Adolpho Bloch e Cardeal Câmara, que não receberam reforço do patrulhamento. A juíza Sandra não quis se pronunciar.

A guerra do tráfico começou às 15h de sábado, quando aproximadamente 60 bandidos de Parada de Lucas tomaram as bocas-de-fumo de Vigário Geral. Há informações de que moradores foram feridos e traficantes, mortos, mas a polícia não entrou em Vigário para confirmar.
Fonte: O DIA