Tráfico expulsa moradores de Vigário Geral

No terceiro dia de guerra do tráfico, moradores de Vigário Geral denunciaram que cerca de 80 famílias já foram expulsas de suas casas pelos invasores da favela vizinha Parada de Lucas. Com bolsas e objetos, grupos de desabrigados aguardavam na rua por garantias de que pudessem voltar em segurança para a favela. Durante toda segunda-feira, houve tensão nas redondezas das duas comunidades.

Revoltados, alguns moradores – que, segundo a polícia, estão ligados a traficantes – queimaram quatro ônibus e obrigaram comerciantes a baixarem as portas na Rua Corrêa Dias. Doze pessoas foram detidas.

Traficantes ligados à facção criminosa Terceiro Comando (TC) teriam invadido, no sábado, a favela de Vigário Geral, que é dominada pelo Comando Vermelho (CV). Há denúncias de que houve execuções na favela e pessoas ainda estariam amarradas na comunidade. Até ontem à tarde, não havia informações sobre o encontro de corpos.

Pela manhã de ontem, dezenas de moradores contaram que foram obrigados a sair de casa apenas com a roupa do corpo. Os desabrigados se refugiaram em escolas, associações de moradores e em casas de parentes. Morador de Vigário Geral, A., 55 anos, contou que estava preocupado com a filha e os três netos que ficaram na favela. “Desde sábado, estou dormindo numa Kombi. Tenho uma filha e um neto de apenas três anos que estão sendo impedidos de sair da favela”, preocupa-se.

Segundo moradores, a favela foi invadida por bandidos armados, vestidos de preto e encapuzados. Os invasores teriam chegado à favela pela Linha Vermelha e seriam ligados aos traficantes Robinho Pinga, dono das bocas-de-fumo das favelas do Rebu e da Coréia, em Senador Camará, e o traficante Irapuã David Lopes, o Gangan, do Morro São Carlos. Os moradores também denunciaram que algumas pessoas foram arrancadas de casa, torturadas e amarradas na quadra de lazer da comunidade. “No domingo, fui impedido de votar. Meu título ficou dentro da favela”, disse morador.

Abalada, uma moradora conta que teve a filha de três anos arrancada de seus braços por traficantes, que a expulsaram em seguida. “Eles entregaram a menina para minha vizinha. Estou desesperada e não posso entrar na favela”, protesta a moradora.

Na madrugada de domingo, o tiroteio entre traficantes rivais atingiu a rede aérea, na altura da estação de Vigário Geral. Ontem, o tráfego de trens ficou prejudicado no ramal de Saracuruna. As composições trafegavam com atrasos de 10 minutos.

No início da manhã de segunda, por volta das 8h15, em protesto, alguns moradores montaram barricadas com pedaços de madeira e pneus, fecharam o tráfego e obrigaram o motorista e os passageiros de um ônibus da linha 138 (Caxias-Nilópolis) a descerem do veículo. Em seguida, despejaram gasolina no ônibus e o incendiaram. O ônibus da linha 342 (Castelo-Jardim América) foi atacado por quase 10 homens, quando estava no ponto final, na Rua Professor Costa Ribeiro. O coletivo foi parcialmente destruído. A cena se repetiu outras duas vezes mais tarde.

Quase ao mesmo tempo em que a polícia reforçava o policiamento nos acessos de Vigário Geral, policiais do 16º BPM (Olaria), 9º BPM (Rocha Miranda) e 15º BPM (Duque de Caxias) fizeram incursões nas favelas de Parada de Lucas, Vila Ideal, Furquim Mendes e Dique. O policiamento também foi reforçado na Linha Vermelha.

Ontem, durante todo o dia, policiais vasculharam becos e ruelas das favelas de Vigário Geral e Parada de Lucas à procura de corpos. A operação na favela foi filmada por policiais. Segundo o comandante do 16º BPM, tenente-coronel Celso Nogueira, havia informações de que corpos esquartejados tinham sido jogados num valão de Vigário Geral. “Não encontramos indícios de corpos na favela. Não havia manchas de sangue no chão, só encontramos cápsulas de vários calibres”, afirmou.

No início da tarde, o comandante da Polícia Militar, coronel Hudson de Aguiar Miranda, sobrevoou as favelas de Parada de Lucas e Vigário Geral. Para evitar novos tiroteios, a polícia ocupou a Estação de Tratamento de Esgoto da Pavuna, nas proximidades das favelas. “Alguns destes manifestantes são ligados ao tráfico de drogas e outros estão recebendo orientações de traficantes”, advertiu o comandante da PM.
Fonte: Terra