“Era ele ou nós” – continuação

No dia 1 de abril, o carioca Paulo Eduardo Olinda, de 28 anos, leu num jornal a notícia de que Amador Cortellini havia matado o filho. “Que horror!”, exclamou. Dependente de drogas, 16 dias depois, Paulo Eduardo, o Duda, como era chamado, estava morto com um tiro. O pai o matou.

Na manhã de sua morte Duda pediu ao pai R$ 130 logo ao acordar. Era para comprar cocaína. O funcionário aposentado da Caixa Econômica Federal Paulo Cézar da Silva negou. A mãe, a dona-de-casa Ângela, respondeu que não tinha. Duda saiu e voltou com cocaína. Drogou-se até perder a consciência e dormiu a tarde toda. Quando foi acordado pela mãe, encontrava-se em surto. Foi até a área de serviço e pegou suas roupas, molhadas. Partiu para cima da mãe: “Molhadas desse jeito não posso vender, sua desgraçada”. Duda agrediu os pais, pegou a televisão de 29 polegadas da sala e disse que a venderia. O pai tentou impedir. Duda atirou o aparelho da sacada do segundo andar. “Vou matar vocês dois”, gritava. Desesperada, a mãe discou para o número 190. Foi aconselhada a pedir ajuda num hospital próximo. Não deu tempo. “Quero ver sangue”, gritou o filho. Com medo, Ângela saiu da casa. Na varanda, quase foi atingida por uma enorme telha, jogada pelo filho. Correu para a rua. Duda foi atrás, mas voltou para buscar uma faca de cozinha. Nesse momento, o pai pegou o revólver 38 que estava no quarto do filho. Duda partiu para cima. O pai atirou. O rapaz morreu na hora. Exatamente como fez Amador, Paulo Cézar ligou para a polícia e ficou aguardando, com o corpo estendido na varanda. A primeira testemunha ouviu o pai dizer: “Foram 15 anos de sofrimento”.

Fazia tempo que Paulo Cézar e Ângela viviam com medo. Dormiam com o quarto trancado. Viciado num grau extremo de dependência, quando sentia falta de drogas Duda não conseguia ver os pais, mas apenas obstáculos humanos para comprar cocaína. No ano passado, Ângela operou o joelho, contundido com tantos chutes do filho. O rapaz também já ferira o pai várias vezes, com socos e pontapés. Roubou muitos carros da família. Um dia, de manhã cedo, ao voltar da rua, saiu de casa levando o botijão. Deixou o gás escapando enquanto os pais dormiam. Outra vez entrou com o carro na vidraça de um hotel. Foi preso, mas o pai pagou a fiança e o soltou. Era, enfim, difícil acreditar que o drogado atormentado era o mesmo rapaz simpático que de vez em quando tocava violão sentado na varanda. No Natal passado, uma imagem marcou a vizinhança. Duda comprou uma bicicleta para o pai e tentava ensiná-lo a pedalar.

De acordo com amigos e vizinhos, os pais sempre foram participantes, divertidos, amigos de Duda e da irmã mais nova, Ana Paula, hoje casada e com um filho de 3 anos. “Quando estava limpo, ele sabia o mal que fazia aos pais”, diz Paulo Arantes, ex-viciado e amigo de Duda desde que foram internados juntos, há mais de dez anos. Na ocasião, Duda passou sete meses internado e ficou quase três anos sem usar drogas. Conseguiu emprego como vendedor de jóias. Numa festa de fim de ano da empresa, achou que poderia beber uma pequena taça de champanhe. Daí para a cocaína foi um passo. Nunca mais parou. Do grupo de 48 rapazes que estavam internados com ele em 1992, apenas 20 estão vivos.

Paulo Cézar, o pai, responde ao processo em liberdade, já que se entregou depois de matar o filho. Mas vive deprimido, sob sedativos. “Estamos fazendo força para tirá-lo da depressão, tentando mostrar a ele que não havia outra opção naquele momento”, diz o cunhado Mauricio Elmer. Em suas semelhanças, as histórias de Rodrigo e Duda se transformam em exemplo de uma nova fase do convívio da família brasileira com as drogas. Até meados da década de 70, em meio ao ideário da juventude Paz e Amor, acreditava-se que elas ajudavam a liberar a consciência. Nos anos 80, assustado com a explosão do uso e com a disseminação do tráfico, o país adotou o modelo de política repressiva exportada pelos Estados Unidos. As substâncias passaram a ser vinculadas à violência e aos delitos. Na década seguinte, as clínicas para tratamento se disseminaram, apareceram as campanhas para diferenciar usuários de traficantes e o assunto ficou em um limite entre saúde pública e caso de polícia.

Nos últimos meses, o tema chegou a seu ponto mais doloroso. O uso de drogas agora leva a violência do tráfico para dentro de casa, em sua expressão mais extrema. No fim do ano passado, o estudante paulista Gustavo de Macedo Pereira Napolitano, de 22 anos, matou a avó e a empregada a facadas. O laudo psiquiátrico divulgado na semana passada concluiu que ele não pode ser responsabilizado pelo crime, cometido depois que consumiu grandes quantidades de cocaína. Em janeiro, na Ilha do Governador, A.F.C.M., de 16 anos, matou a facadas a avó de 76 anos e espancou a mãe. O adolescente morava na rua paralela à da família de Duda. Os dois costumavam usar cocaína juntos. Dias depois, em Volta Redonda, Tereza da Silva Lucas, de 60 anos, foi morta a facadas pelo neto adolescente, em crise de abstinência. Em abril, o paulista Marcos Fonseca, de 38 anos, espancou até a morte sua mãe, Elisa Fristashi, de 72 anos. Marcos usava drogas desde os 18 e vivia de mesada. Segundo a polícia, discutiu com ela e bateu sua cabeça contra uma banheira.

Todos esses crimes deixaram o país em estado de choque. As duas mortes recentes, contudo, produziram outra reação, como se o dependente pudesse ser criminalizado, postura que explica o nível zero de indignação provocado pela morte dos dois rapazes. Mesmo tendo cometido homicídio, os pais de Rodrigo e Duda tiveram direito a certa cumplicidade e tolerância. Vizinhos do condomínio em que o aposentado Amador morava fizeram um abaixo-assinado atestando sua boa índole para encaminhar ao delegado responsável pelo caso. Familiares e vizinhos de Paulo Cézar também o defendem.

“Meu marido sabia que eu fiquei ao lado dele o tempo todo, não o culpei por ter matado nosso filho. Mas ele não queria mais viver. Agora, os dois estão nas mãos de Deus “
SOFIA DOS SANTOS VIZOTO CORTELLINI, DE 65 ANOS, logo depois de enterrar o marido, Amador, ao lado do túmulo do filho
Fonte: Época