“Era ele ou nós” – continuação

Se toda estatística sobre consumo e tráfico de drogas é precária, há poucas dúvidas de que o consumo esteja aumentando. Em São Paulo, as apreensões de cocaína chegaram a 1,2 tonelada, um número quase 40% maior que no ano anterior. Numa ponta se encontra o traficante, braço do crime organizado, na outra se encontra o consumidor, candidato a viciado e dependente pesado. “Nem todo dependente é um criminoso, mas isso acontece com boa parte deles. O usuário da classe média começa vendendo seus objetos pessoais, tênis, CDs. O pobre vende o botijão de gás. Quando acaba o dinheiro, eles cometem delitos”.

O que essas mortes demonstram é uma sucessão de fracassos. Se ficou difícil para a polícia vencer o tráfico nas ruas, também se tornou complicado para muitos pais deixar os filhos longe das drogas. Isso ocorre num momento em que ninguém mais acredita nas vantagens do uso de maconha e muito menos de cocaína. Nunca se fez tanta campanha contra as drogas. Nem por isso ficou mais fácil combater seu uso. A oferta é grande e mudou de situação. A droga deixou de ser uma espécie de transgressão para virar um rito de passagem, semelhante a um ato obrigatório pela natureza – a iniciação sexual. Pesquisas mostram que mais de 60% dos jovens brasileiros consideram fácil conseguir algum tipo de droga. “A curiosidade deles em experimentar essas substâncias demonstra que falta esclarecimento”, diz Ivaney Cayres de Souza, diretor do Departamento de Investigações sobre Narcóticos, em São Paulo. Falta conversa em casa, sim. Mas também falta polícia na rua.

“Meu filho começou a fumar maconha aos 15 anos. Logo entrou na cocaína. Eu percebia as coisas sumindo da minha casa e até das minhas lojas, mas não desconfiava dele. Um dia ele foi preso num shopping por causa de pequenos furtos. Saiu dali algemado. A mãe dele o defendia, não aceitava que eu endurecesse. Acabamos nos separando. Meu filho vendeu tudo da casa da mãe. TV, videocassete, aparelho de som, celular. Tudo para comprar droga. Chegou a carregar o fogão de casa, mas não conseguiu vendê-lo. Várias vezes fui chamado para ajudar a acalmá-lo. Ele destruía móveis, vidraças, o que via pela frente. Eu o internei em clínicas de recuperação cinco vezes. Ele saía limpo, mas não durava mais que cinco dias. A mãe dele adoeceu, emagreceu. Os dois filhos mais novos se revoltaram, têm vergonha.

No último ano meu filho mandava um traficante ir até a casa da mãe dizer que ele devia dinheiro na compra de drogas e exigia uma quantia qualquer para libertá-lo. No começo ela acreditou. Desesperada, deu o dinheiro. Depois começou a desconfiar e me contou. Na última vez, chamei a polícia. O traficante confessou o falso seqüestro. Meu filho foi encontrado esperando o dinheiro num bar. Não o livrei, dei queixa. Quando sair da clínica de recuperação, vai ter de responder à Justiça.

Ele ia acabar se matando. Já tinha cortado os pulsos mais de uma vez, os braços são só cicatrizes. Fico me lembrando do menino alegre que ele foi. A mãe dele não me perdoa pelo que eu fiz. Nem eu sei se me perdôo. Se tivesse que fazer de novo, não sei se teria coragem. Espero que ele me desculpe quando melhorar. Que entenda o que eu fiz. Fazer tudo por um filho é também protegê-lo contra si mesmo.”
PAULO DE TARSO LOUREIRO, pai que entregou o filho dependente à polícia
Fonte: Época