“Era ele ou nós”

As drogas levam a violência para dentro de casa e produzem crimes desesperados

A tarde da sexta-feira, o corpo do comerciante aposentado Amador Cortellini foi sepultado no cemitério Chora Menino, em São Paulo. Amador morreu devastado pela culpa. Vinte e seis dias antes ele desferiu o primeiro tiro do revólver com cabo de madrepérola que tinha comprado havia 40 anos. A bala foi disparada de cima para baixo – e atingiu o coração de seu filho caçula, Rodrigo, de 26 anos. O rapaz morreu na hora. Depois do crime, Amador passou duas noites preso. Com a saúde em frangalhos, foi mandado para casa. Entrou em depressão. Como carregava uma prótese no lugar de uma das válvulas cardíacas, Amador Cortellini passou a tomar nove comprimidos por dia, na tentativa de estabilizar a pressão. Ficava o tempo inteiro na cama, não saía do quarto. Estava lúcido, mas chorava sem parar, abraçado às visitas. “O tiro que atingiu Rodrigo pegou a mim também”, repetia. Quando um parente tentava tirá-lo do torpor, pedia: “O único desejo que eu tenho é ser enterrado ao lado do meu filho”. A depressão e a fraqueza geral foram seguidas por uma quebra na resistência e a chegada de uma infecção. Na Páscoa, Amador teve um derrame cerebral e entrou em coma. Morreu na quinta-feira. Foi sepultado à direita do túmulo de Rodrigo.

Casado há 40 anos, pai de três filhos, Amador matou seu caçula depois de uma briga de domingo. Rodrigo saiu de casa – um apartamento na Água Fria, bairro de classe média de São Paulo – de manhã e voltou para o almoço. Encontrou a cunhada e um casal de amigos com quem meses antes viajara para um sítio. O passeio terminara em briga porque Rodrigo foi acusado de roubar as carteiras das pessoas que estavam na casa para comprar drogas. “O que esse povo está fazendo aqui? Eles dizem que eu roubei. Vocês nunca me defendem”, gritou. “Os pais dele pediram desculpas e nós fomos embora”, conta uma das visitas, a publicitária Maurilene Faria dos Santos. Sofia tentou acalmar o filho e foi empurrada para fora. Amador decidiu tomar providências. Foi ao quarto do filho dizer que ele não poderia mais ficar em casa. Antes, pegou o revólver com cinco cartuchos. “Vamos resolver isso. Você vai embora.” Rodrigo se abaixou, talvez para pegar uma cadeira de plástico. A 1 metro e meio de distância, o pai disparou. Rodrigo caiu no chão, o pai se debruçou sobre o corpo e começou a chorar. A mãe chamou os vizinhos. O próprio Amador ligou para a polícia e avisou que atirou no filho. Quando os investigadores chegaram, repetia “eu não agüentava mais”.

Os Cortellini viviam às voltas com o inferno das drogas havia anos. Com o tempo, foram se transformando em um tipo de família bastante conhecido pelas pessoas que já enfrentaram casos de dependência dentro de casa. Para os pais, o menino temporão foi aos poucos virando o filho que lhes envenenava a alma. Em seis anos, passou por quatro clínicas em três Estados. Por três vezes, a polícia foi chamada para intervir em brigas domésticas. Como costumava acontecer freqüentemente, Rodrigo alternava períodos em que parecia recuperado com outros de uso contínuo. Em 1998, passou seis meses no Instituto Souza Novaes, em Campinas. Saiu de lá certo de sua recuperação. “Um ano depois, ele voltou para mostrar que ainda estava bem, longe das drogas”, conta o diretor da clínica, Tony Rabelo. Aos 24 anos, casou com uma colega do curso de Direito. Animados, os pais deram-lhe um apartamento de presente. Um ano depois, Rodrigo deixou a faculdade, separou-se e voltou para casa. Os outros dois filhos do casal, Cláudia, de 38 anos, e Alexandre, de 33, foram se distanciando do problema, com a convicção – também comum nessa situação – de que o irmão não se livrava do vício por fraqueza de caráter. Fora de casa, no círculo de amigos, Rodrigo deixou as lembranças de bom sujeito. Tocava baixo em uma banda de rock e pagode, vez por outra ia a igrejas evangélicas.

“Eu amava meu filho. Mas a morte dele foi inevitável. Era ele ou eu. Ele ou meu marido. Olho para trás e não acho que tenha lhe faltado nem amor, nem direção, nem diálogo. Não sei que explicação dar para ele ter entrado na droga. Eu lembro como se fosse um filme. Eu e meu marido na cozinha, preocupados com nosso filho de 14 anos que pela primeira vez havia dormido fora de casa sem avisar. Na véspera meu marido sentira falta do dinheiro que havia separado para a feira. De repente ele chegou, viu nossos rostos e, antes que perguntássemos qualquer coisa, falou: “Mãe, pai, eu sou viciado em cocaína”. Eu nem sabia direito o que era cocaína. Nesse dia o inferno começou. Ele se internou 11 vezes. Não conseguia parar. Roubava, mentia, ameaçava, agredia. Quando estava drogado, eu tinha medo de falar com ele. Eu tremia, ficava sem uma gota de saliva na boca. Meu filho nos bateu várias vezes. Eu mal dizia qualquer coisa e ele começava a gritar, quebrava tudo. Num único dia nós chegamos a chamar a polícia cinco vezes para segurá-lo e acalmá-lo.

Quando estava sem drogas, era adorável. Inteligente, cheio de personalidade. Adorava música, tocava violão, gostava de abraçar todo mundo. Com a droga, mudava. Na última semana de vida, cheirou sem parar. Ele chegava a dizer: “Eu amo mais a cocaína do que vocês”. Fizemos tudo que podíamos para ele sair do vício. Sei que para o resto da minha vida vou sentir saudades do meu filho, dos momentos em que fomos todos felizes. Mas também compreendo a atitude do meu marido. Vou apoiá-lo.

Mais de uma vez, meu filho disse: “Mãe, por que eu não morro logo para resolver o meu problema e o de vocês?” E alguma coisa está resolvida? Estamos destruídos.”
ÂNGELA OLINDA DA SILVA, DE 52 ANOS, mãe de Paulo Eduardo, de 28, assassinado pelo pai
Fonte: Época