Traficantes protegem bocas atrás de portões trancados com cadeados

Para evitar os ataques de surpresa da polícia ou de seus inimigos, os traficantes da Favela Parque Santa Madalena – erguida bem perto da Avenida Sapopemba, na Zona Leste, e que integra o complexo do Jardim Elba – decidiram proteger suas “bocas” atrás de portões trancados com cadeados. Só que, ao mesmo tempo em que dão segurança a seus quilos de cocaína, os criminosos mantêm prisioneiros parte dos 20 mil moradores.

Há pelo menos quatro portões no labirinto de vielas, cada um deles resguardando a “central de abastecimento” de cada um de seus “donos”. Pouco antes da meia-noite, os traficantes fecham as passagens com cadeados e desaparecem com as chaves. E, até o amanhecer do dia, os moradores se tornam reféns do tráfico.

Logo na entrada da favela está o Bar da Zélia, no começo da viela batizada de Rua Rodrigues dos Santos. Ao lado funciona o posto de saúde. Cerca de 50 metros à frente, do lado direito, está colocado o primeiro portão.

Tem pintura na cor vinho e, mesmo durante o dia, é mantido trancado com um cadeado. Ao lado dele, uma informação mal escrita no muro indica que, atrás daquelas grades de ferro vivem os moradores da Viela dos Cravos.

A rua vai ficando mais estreita e, dela, sai um emaranhado de becos. Um pouco adiante, cerca de 200 metros, está o segundo portão, que dá acesso à favela do Jardim Elba, o mais conhecido reduto do tráfico da Zona Leste.

O portão é cinza, tem quase dois metros de altura, é revestido com chapas de metal e, sobre ele, há lanças pontiagudas, algumas delas quebradas. Este está aberto. Mas só até a meia-noite.

“Houve casos de pessoas que passaram mal de madrugada e precisaram de socorro médico. Mas, até achar quem estava com a chave, demoraram mais de 45 minutos. É possível encontrar outra saída pelo meio dos becos, mas é preciso dar muitas voltas para chegar à rua”, conta um comerciante que mora há quase 20 anos na região e, revoltado, decidiu denunciar a existência dos portões.

Ele fala sobre a insegurança imposta a quem vive na favela: “O medo maior das pessoas é de um incêndio. Se a favela pegar fogo, vai ser uma tragédia porque os portões ficam trancados. Gente idosa, deficientes, mulheres e crianças não conseguem pular. É um absurdo e um crime.”

Nos cálculos de quem vive na Santa Madalena, faz cerca de um ano que os portões impedem a livre passagem dos moradores durante a noite. Logo que foram colocados, eram trancados às 23h. Mas alguns jovens que estudam à noite em bairros distantes negociaram a ampliação do horário com os traficantes. Depois da conversa, os bandidos concordaram em trancar as vielas à meia-noite.

“Teve gente que se atrasou para voltar e precisou dormir na casa de conhecidos. Conheço até quem trabalhava à noite na faxina de um banco e mudou o horário porque não podia entrar de madrugada”, contou.
Fonte: Cruzeiro do Sul