A hora de pedir ajuda

Recente campanha contra o uso de drogas lançada no Reino Unido mostra, em 3×4, a degradação dos dependentes. A iniciativa chocou o público ao retratar, através de registros de fichas policiais, o definhar de mulheres usuárias de drogas. Uma das personagens do drama real, Penny Wood, ilustra o resultado de quatro anos de abuso de anfetaminas.

As populares “bolinhas” foram usadas por soldados durante a Segunda Guerra Mundial para não sentirem fome ou sono em combate. Desde a década de 50, a indústria farmacêutica investe no desenvolvimento e na venda de fórmulas para emagrecer, um dos mais lucrativos segmentos do mercado. A tentação é inegável: a substância promove uma sensação de saciedade enquanto acelera todas as funções, inclusive a queima de calorias. O resultado – corpo “dos sonhos” com pouco esforço e em pouco tempo.

Que os comprimidos tem lá seus efeitos colaterais, também muita gente já sabe ou ouviu amigas narrarem histórias de outras amigas. Fato que não impede que mulheres visitem consultórios de endocrinologistas com a intenção de obter o medicamento. Ou que médicos o receitem indiscriminadamente. Insônia, taquicardia, irritação, boca seca são alguns dos efeitos colaterais que, em quadros mais graves, evoluem para agressividade, aumento da pressão arterial, elevação da temperatura corporal e paranóias. As fatalidades decorrentes do abuso do medicamento não são lendas urbanas – elas realmente ocorrem. Principalmente se combinada com bebidas alcóolicas.

“A primeira vez que tomei anfetaminas foi o médico que me receitou”, afirma a estudante F.L., 23 anos. “Na época, tinha 16 anos e pesava 78 quilos. Fui ao médico porque queria perder peso, e ele, sem fazer nenhum tipo de exame, passou uma receita”. Infelizmente, essa postura dos profissionais faz com que o Brasil seja um dos maiores consumidores de anfetamina do mundo.

A endocrinologista do Hospital Edmundo Vasconcelos Vivian Estefan, de São Paulo, esclarece que as anfetaminas são indicadas em caso de obesidade, quando o Índice de Massa Corporal (IMC) do paciente for, no mínimo, superior a 30. O IMC é o resultado obtido da divisão do peso pela altura elevada ao quadrado. “Quando o IMC é maior que 30, a dificuldade em perder peso é maior, o número de quilos a ser eliminado é maior e o resultado precisa ser sentido mais rápido”, esclarece a médica, doutora em endocrinologia pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP). “Principalmente pelos problemas que o obeso sofre – hipertensão, colesterol, diabetes – mas cada caso deve ser avaliado individualmente”, conclui.

No caso da estudante F.L., o IMC somava 27, ou seja, a prescrição do médico era desnecessária. “A administração de anfetaminas perder peso é criticável, primeiro, pelo fato de induzir a uma dependência, em segundo lugar, ela serve para ajudar a começar a emagrecer; o uso deve ser a curto prazo, aliado a um programa de reeducação alimentar”, garante a coordenadora do Programa de Atencao à Mulher Dependente Química (Promud) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. A psicóloga é categórica ao recriminar o uso indiscriminado da substância “Tem uma série de outras coisas que podem ser feitas para perder dois ou três quilos”.

“Perdi 18 quilos em seis meses, mas tinha taquicardia, ficava muito ansiosa e não conseguia dormir direito”, diz F.L, “isso sem contar a boca seca e o mau hálito que me incomodavam muito”. Com o abandono do medicamento, a estudante recuperou aos poucos parte do que perdeu com as “bolinhas”. Conforme a psicóloga e coordenadora do Promud, é o que costuma acontecer com o uso isolado de anfetaminas. Sem uma reeducação alimentar e a adoção de novos hábitos, a mulher ingressa em um círculo vicioso. Não pára com a medicação, com medo de retornar ao peso antigo e aumenta a dosagem do remédio, já que o organismo desenvolve uma tolerância à droga.

“Na primeira vez que eu tomei, eu ainda tinha muito receio dos efeitos colaterais e por isso tomei direitinho… Da segunda vez, eu estava completamente encantada com o emagrecimento rápido e passei a tomar em intervalos menores de tempo… Eu dormia apenas 3 horas por noite (com muita dificuldades), minhas pupilas ficavam dilatadas, eu tremia bastante, tinha tontura, caía minha pressão…”, relata a estudante G.B., 21 anos. Longe de estar acima do peso, a jovem é um exemplo da imprudência médica.

As artimanhas para conseguir aumentar as doses são muitas. “Há quem adultere as receitas”, revela Dra. Vívian, “muitas choram, fazem chantagem emocional, algumas até ameaçam se matar”, completa a médica. Sílvia, do Promud, narra casos de mulheres que visitam três ou quatro médicos com a mesma história para conseguir mais receitas. E abandonar o vício não é fácil, ao recuperar os quilos, é muito comum que a pessoa retome o consumo. “Para encerrar o tratamento, era preciso ir reduzindo as doses até parar. Mas eu não conseguia. Eu tinha tanto medo de engordar que tomava a mesma dosagem até o meu último comprimido. é muito difícil parar. Dá desespero!”, diz G.B.

O Promud presta assistência psicossocial a mulheres com dependência química ou de álcool. Dentre as atendidas pelo programa, apenas 10% estão em tratamento por dependência de anfetaminas. O número é baixo, mas reflete a dificuldade de conscientização das usuárias. Infelizmente, segundo Sílvia, “as mulheres não se julgam dependentes porque estão tomando remédio muitas vezes prescritos pelo médico. Há uma dificuldade em perceber a dependência”. Ainda de acordo com a coordenadora do projeto, quando a mulher sabe que aquilo está prejudicando sua qualidade de vida, mas mesmo assim não consegue parar de tomar, é hora de buscar ajuda.

A recuperação

O tratamento é feito por uma equipe formada por psiquiatras, psicólogos, nutricionistas e terapeutas ocupacionais. Normalmente, ao parar de tomar as “bolinhas”, as mulheres desenvolvem sintomas depressivos. “Às vezes porque a depressão já existia antes, mas não havia sido diagnosticada”, diz a psicóloga. “Como consequência, ela engordou, tomou anfetaminas e isso a fez se sentir melhor”.

Com sessões de psicoterapia em grupo, as usuárias discutem suas angústias e um acompanhamento paralelo com nutricionistas ajudam a prevenir o efeito sanfona. “É importantíssimo que ela não ganhe peso”, ressalta Sílvia. Terapeutas ocupacionais desenvolvem atividades para melhorar a expressão de pacientes muito jovens ou com dificuldade de se expor.

A taxa de recuperação das inscritas no grupo é boa. Em seis meses de tratamento, 40% estão abstinentes ou baixaram muito o consumo, melhorando a qualidade de vida. Em um ano, esse número sobe para 80%. “Quando perder peso vira uma obsessão e a pessoa passa a buscar essa meta com única maneira de obter felicidade, a qualidade de vida cai vertiginosamente”, diz Vívian, do Hospital Edmundo Vasconcelos.

Relato da universitária Fernanda, 22 anos, estudante de Relações Internacionais, que fez uso de Dualid (Cloridrato de Anfepramona)

“Eu queria emagrecer uns 5kg para ficar com a barriga sequinha. Comecei em 2002, porque uma amiga minha da faculdade estava tomando. Inicialmente, senti perda de apetite, euforia, disposição para fazer um monte de coisas ao mesmo tempo. Mas, com o tempo, o organismo desenvolve uma farmacodependência e mesmo com o alerta que existe na bula sobre esse fato, eu resolvi por conta própria aumentar a dosagem.

Comecei a perder massa muscular, sentia muita dor de cabeca, confusão mental, irritacão, boca seca, tonturas, tinha taquicardia e cheguei a desmaiar algumas vezes. Entrei em um estado depressivo e passei a ter sintomas de anorexia. Não conseguia mais parar de emagrecer. O remédio dava uma falsa sensação de segurança.

Eu fiquei muito fragilizada emocionalmente e um dia fui a um barzinho com um amigo -não pode misturar Dualid com álcool – e tive overdose. Fui parar no hospital com quadro de intoxicação, pois nessa época eu já estava completamente impulsiva e tomava vários comprimidos indiscriminadamente. Fui submetida a uma lavagem gástrica e quase morri.

Através de uma reportagem na internet sobre os sites pró-ana (sites de pessoas que defendem a anorexia), entrei em contato com o Sinto Muito (grupo virtual de apoio e incentivo à procura de tratamento especializado às pessoas com transtornos alimentares na internet, criado por Joyce Peu). Eles apontavam o grupo como alternativa para quem sofria de bulimia e anorexia e queria ajuda.

Faço tratamento especializado há 1 ano e meio no Ambulim (Ambulatório de Bulimia e Anorexia do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas) com psiquiatra, nutricionista e terapia em grupo. Além disso, submeto-me a 3 sessões semanais de psicanálise com uma pessoa especializada na área de TAs (transtornos alimentares)

Resolvi buscar tratamento quando percebi que eu não tinha mais o controle sobre mim mesma. Estava pesando 45kg, meu cabelo caía muito, a pele estava ressacada, não tinha disposição pra nada e ainda assim me sentia gorda, odiava ter que comer. Acima de tudo, eu estava infeliz e sabia que o meu problema era muito maior do que a suposta gordura.

Não tinha mais o que emagrecer, mas eu me sentia infeliz comigo mesma e perder peso era algo que fazia com que eu me sentisse no controle desses sentimentos. Eu gostava da idéia de poder controlar a fome, o meu corpo, as emoções. Minha auto estima estava arrasada, as pessoas comentavam que eu estava ficando feia de tão magra. Me sentia triste, pois quando eu estava com uns quilinhos a mais, diziam para eu emagrecer e depois que emagreci muito também era criticada. Era uma luta muito triste para ser sempre aceita, ser sempre a melhor, a mais magra, a mais bonita.

Acabei anulando os meus desejos reais em prol da aparência e de viver controlando o peso obstinadamente, como se esse comportamento fosse me trazer sucesso! É muito fácil depositarmos toda a nossa frustração na gordura, como se a infelicidade surgisse simplesmente pelo fato de estarmos acima do peso. O problema é que as pessoas emagrecem com a ilusão de que se transformarão em uma pessoa melhor, diferente, com auto-controle de provocar inveja.

Moderadores de apetite não devem ser utilizados sem prescrição médica e tampouco por motivos estéticos. Após mais de 1 ano e meio de tratamento estou no meu peso ideal e cada dia mais feliz, livre desses tormentos! Consegui atingir os meus obejtivos com a reeducação alimentar, orientada por uma nutricionista e com muita terapia. Hoje sei que a felicidade é o melhor e mais barato embelezador que existe. Invistam em auto conhecimento. Desconfie de quem valoriza muito a aparência e das pessoas que se aproximam quando você emagrece.

Procure um especialista e não tenha vergonha de pedir ajuda. Eu tive sorte em ter sobrevivido a dependência do Dualid e de não ter morrido na overdose. Mas já vi muitos casos de pessoas que morreram ou ficaram com sequelas graves devido ao uso indiscriminado desse tipo de veneno.”
Fonte: Guia da Semana