Narcotráfico divide as Américas

Depois de dois dias de reuniões, os ministros da Defesa das Américas não tinham chegado a um consenso sobre o documento final do encontro de Quito, que definirá a nova arquitetura da segurança da região. De um lado, Estados Unidos, Canadá e Colômbia desejavam que a “Declaração de Quito” destacasse as duas novas ameaças do século 21 – terrorismo e crime organizado, aí incluído o narcotráfico – como as principais ameaças da região. Os três propõem que as Forças Armadas desses países deixem de se preocupar com as ameaças tradicionais, como a preservação das fronteiras, dedicando-se ao combate dos crimes transnacionais.

O outro lado, liderado pelo Brasil, abriga os demais países da América Latina e o México. Eles querem um documento mais amplo, que preserve o papel das Forças Armadas como garantia das fronteiras e da soberania, mas respeitando as preocupações específicas de cada país e enfatizando que a pobreza extrema é uma ameaça à segurança. Estes países não aceitam que as Forças Armadas sejam transformadas em polícia.

O vice-presidente e ministro da Defesa, José Alencar, defendera a posição do Brasil e destes países no discurso de quarta-feira (17), que mereceu elogios de várias delegações. Hoje, ele conversou com os ministros da Defesa da Guatemala, do Paraguai, da Colômbia, do Chile, da Argentina e da Venezuela e ressaltou que “a posição do Brasil é de fortalecimento da defesa, preservando os objetivos das Forças Armadas, de garantia da soberania e da integridade territorial, trabalhando com as polícias na vigilância das fronteiras, ou em ações pontuais.”

“Não queremos criar dois pólos de segurança com Forças Armadas e polícias”, disse. Mas Alencar rechaçou a hipótese de criação de um Exército regional, como chegou a ser cogitado pelos norte-americanos, para combate ao narcotráfico e ao terrorismo. “Não há nada disso. Estamos dispostos a cooperar com todos os países, com a Colômbia, o Haiti, como estamos fazendo agora, mas respeitando a soberania de cada país.”

Alerta – O ministro da Colômbia, Jorge Uribe, não concorda que a região esteja dividida em dois blocos. “A análise da Colômbia sobre narcoterrorismo coincide com a posição dos EUA porque considera que este não é um problema de uma nação, mas da humanidade”, observou. “Queremos fazer um alerta ao mundo para evitar que sofram o que a Colômbia sofreu com o avanço do narcotráfico.”

Os ministros da Argentina , José Pampuro, e do Chile, Jaime Ravinet, defendem um documento que atenda os interesses de todos. “Queremos um documento amplo, que considere como questão de segurança também as questões sociais”, disse o chileno. O argentino afirmou que “não considera prudente” criar uma força multilateral. O documento incluirá questões de não intervenção e de respeito aos direitos humanos.
Fonte: Cruzeiro do Sul