Disputa em favela provoca pânico

A disputa entre facções rivais do tráfico de drogas dos morros do Vidigal e da Rocinha (zona sul) causou duas horas de intenso tiroteio ontem de madrugada no Rio.

O confronto começou à meia-noite. Dois transformadores de energia foram atingidos por tiros, e a maior parte do Vidigal ficou sem luz até o início da manhã de ontem. A avenida Niemeyer, que liga os bairros do Leblon e de São Conrado, foi interditada por cerca de uma hora e meia. Durante o dia, o clima ainda era tenso no local onde ocorreram os disparos. A maioria dos moradores se recusa a comentar o confronto com medo de represálias dos traficantes. Segundo a Polícia Civil, a tentativa de invasão é a retomada do conflito, iniciado em abril passado, entre facções rivais que disputam o controle de venda de droga no Vidigal.

A Polícia Militar reforçou o patrulhamento no morro com homens do Batalhão de Choque, do Getam (Grupamento Especial Tático-Móvel), de 34 homens do 23º Batalhão da Polícia Militar, do Leblon, do Batalhão Florestal e do Bope (batalhão de Operações Especiais).

“O objetivo da operação é fazer com que a comunidade se sinta mais segura com a presença da polícia”, disse o major Marcos André Tortola antes de entrar na mata que liga as duas favelas em busca de possíveis vítimas.

Havia boatos sobre a morte de 12 pessoas. O número caiu para três poucas horas depois. Na volta da vistoria, em que foram usados cães farejadores, o major da PM afirmou que nenhum corpo havia sido encontrado.

Uma porta de garagem no largo do Santinho, onde há minimercados e bares, foi cravejada por tiros. No morro, foram encontradas ainda duas granadas. Uma, no mesmo largo, no início da operação, por volta das 10h30, e outra no final, já na descida dos policiais, às 13h. Também foram encontrados mais de 30 papelotes de entorpecentes.

Neste ano, durante a Semana Santa, quando traficantes saíram do Vidigal e foram para a Rocinha na tentativa de controlar as bocas, como são conhecidas os pontos-de-venda de drogas, ao menos 14 pessoas foram mortas, entre elas Luciano Barbosa da Silva, apontado como o chefe do tráfico na Rocinha pela Secretaria de Segurança.

Na noite da Sexta-Feira Santa, os traficantes interromperam o trânsito na avenida Niemeyer em busca de carros para invadir a favela rival.

Pânico – A cozinheira R. Z., moradora do morro do Vidigal há dez anos, afirma que não consegue dormir tranqüilamente desde abril, quando foi intensificada a guerra. “Não há mais como dormir em paz aqui. Há oito meses, todos os dias, a partir das 18h, começam os tiroteios”, disse. R.Z., uma das poucas moradoras que se dispuseram a falar, mora com outras 15 pessoas na mesma casa, incluindo oito filhos. Nascida em Campos (a 280 quilômetros do Rio), ela diz que comprou o imóvel por R$ 18 mil. “Eu vendo até por menos de R$ 10 mil, mas ninguém se oferece para comprar.”
Fonte: Folha do Estado