Menores têm fácil acesso a drogas

O acesso a drogas lícitas como álcool ou cigarro por menores de idade não é difícil, segundo o 5º Levantamento sobre o Uso de Álcool e Drogas entre Crianças e Adolescentes em Situação de Rua, realizado no segundo semestre do ano passado pelo Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid) e financiado pela Secretaria Nacional Antidrogas (Senad).

A pesquisa ouviu 2.807 crianças e jovens em situação de rua e mostrou que a maioria conseguiu comprar cigarro e bebidas alcoólicas em bares. Dos entrevistados, 35,9% comprou pessoalmente o cigarro e 28,1% o álcool. Já 14,9% conseguiram adquirir solvente no comércio e 13,9% pediu ou ganhou de alguém.

A pesquisa realizada no segundo semestre de 2003 identificou ainda alguns comportamentos de risco nos meninos e meninas ouvidos. Os estudos mostram que jovens em situação de rua que usam de forma abusiva a droga tendem a se arriscar em outros aspectos, como tentativas de suicídio (12,6%).

Além disso, 31,5% disseram que ficaram mais bravos após o uso de drogas psicotrópicas. Ao invés do sentimento de irritação, 28,6% afirmaram que sentiram mais moles e foram roubados ou apanharam. Já 26,9% contaram que andaram nas ruas sem cuidado, correndo o risco de serem atropelados, 25,3% transaram sem camisinha e 22,1% foram roubar.

Trabalhar é um dos grandes desejos das 2.807 crianças e jovens em situação de rua entrevistados. Quando questionados sobre qual era a expectativa, 43,4% responderam que era trabalhar e 26,6% responderam que querem estudar. A maioria se interessa também por coisas normais de crianças e adolescentes como esporte (46,1%), brincadeiras (41,5%), estudar, ler e escrever (39,3%).

Apesar disso, a droga está presente na vida desses meninos e meninas. A maioria, 31% disse que consumiu algum tipo de droga ilegal ou obtida clandestinamente após a situação de rua para acompanhar um amigo (29,4%) ou curiosidade (29,2%). A primeira droga utilizada por 27,1% foi o solvente, seguida pela maconha, 20,4%, e cocaína e derivados, 2%.

A pesquisadora Ana Regina Noto destacou a importância de políticas públicas integradas que garantam, por exemplo, a estabilidade de instituições de assistência, capacitação dos profissionais e que o serviço de saúde receba esse jovem. “O encaminhamento deve ser feito rápido e hoje esse processo ainda é lento e prejudica a recuperação de drogas. Os educadores dizem que têm dificuldade de encaminhar casos”, afirmou.

A estudiosa condena o uso apenas de intervenções de controle e repressão. “Para a população em situação de rua a repressão e as medidas de controle são muito pouco efetivas e até inadequadas”, ressaltou.

Ela chamou a atenção para que o levantamento ajude na elaboração de políticas públicas para esses jovens. “Cada número representa uma história, de uma criança ou adolescente, que está inserido em um contexto do qual fazemos parte”, concluiu.
Fonte: Folha do Estado