Tráfico aterroriza o Rio dia e noite

O confronto entre traficantes de drogas assustou os cariocas em diferentes pontos do Rio entre a noite de quarta-feira e a madrugada de ontem. Pela segunda vez nesta semana, a guerra entre traficantes da Rocinha e do Vidigal, na Zona Sul, fechou a Avenida Niemeyer, que dá acesso à Zona Oeste, por quase uma hora, enquanto balas traçantes cruzavam o céu de São Conrado.

Em Benfica, na Zona Norte, a Avenida Brasil, um dos principais acessos à cidade, foi o cenário da luta entre traficantes de favelas vizinhas, dividas pela via expressa. Duas pessoas morreram. Em Vila Isabel, bandidos enfrentaram a polícia e um adolescente foi morto.

O tiroteio que começou por volta das 21h no Vidigal deixou a Avenida Niemeyer fechada por quase uma hora em mais uma tentativa dos traficantes da Rocinha de tomar os pontos de vendas de drogas do Vidigal. Policiais militares que faziam o patrulhamento não conseguiram enfrentar os bandidos e o tiroteio só terminou com a chegada de blindados do Batalhão de Operações Especiais (Bope), a tropa de elite da PM, e homens do Batalhão de Choque.

Até um helicóptero foi usado na operação. Moradores tiveram de esperar para subir o morro. Um deles, cujo nome não foi divulgado, foi atingido por uma bala perdida na coxa esquerda. Levado para o Hospital Miguel Couto, teve alta ontem.

As facções rivais dos morros vizinhos se enfrentam há oito meses. Os traficantes da Rocinha, ligados à Amigos dos Amigos (ADA) aproveitam a fragilidade do Comando Vermelho (CV), que domina o Vidigal. Mais uma vez, o Largo do Santinho, foi o local onde ocorreram as maiores trocas de tiros. Na manhã de ontem, equipes de TV filmaram traficantes exibindo fuzis e utilizando binóculos nas vielas da favela. O comandante do batalhão local da PM, Renato Fialho, vai requisitar as fitas para tentar identificar os bandidos, que chegaram a apontar armas para os jornalistas.

Na Zona Norte, motoristas que dirigiam pela Avenida Brasil em direção ao Centro, tiveram de voltar pela contramão diante das balas que cruzavam a via na altura de Benfica, por volta da meia-noite. A PM resolveu interromper o trânsito até que o intenso tiroteio na Favela Parque Arará fosse controlado, por volta de 1h. Segundo a polícia, bandidos das favelas vizinhas Parque Alegria e Barreira do Vasco tentaram tomar as bocas-de-fumo do Arará. Pela manhã, foram encontrados dois corpos na favela.

O conflito no Morro dos Macacos impediu que muitos moradores da Vila Isabel, Zona Norte, saíssem de casa para o trabalho ou levar crianças para a escola por causa do intenso tiroteio iniciado por volta de 6h.

Bandidos armados com fuzis foram vistos nas ruas próximas à praça Barão de Drummond, no final do Boulevard 28 de Setembro, a principal avenida do bairro. A PM interviu e um rapaz de 16 anos, identificado como Geovani Cruz Tomaz Alves, foi baleado no confronto e morreu a caminho do Hospital do Andaraí.

Itagiba diz que população “não será refém”

O secretário de Segurança Pública do Rio, Marcelo Itagiba, afirmou ontem que a população não pode ficar refém dos traficantes de drogas, com tiroteios diários. Segundo ele, o confronto direto com os traficantes é necessário, para tirá-los de circulação. “A polícia continuará confrontando os bandidos que matam inocentes. Não há outra forma de lidar com bandidos fortemente armados. A Polícia continuará preendendo bandidos que, se resistirem a tiros, serão feridos ou mortos no enfrentamento”, disse Itagiba.

O secretário ressaltou que os órgãos de segurança pública não vão permitir que “a população civil e inocente” fique refém das quadrilhas que vivem do tráfico e se matam para controlar os pontos de venda, principalmente nas favelas da Zona Sul da cidade, que é uma área rentável para o comércio de drogas.

Marcelo Itagiba voltou a alertar para o fato de que é preciso um trabalho muito forte de conscientização para que os usuários de drogas constatem que eles alimentam a existência do tráfico de drogas e suas terríveis conseqüências, como a violência contra vítimas inocentes por balas perdidas disparadas por bandidos na luta pelo controle dos pontos de venda.

Integração

De acordo com o secretário, “é necessária a integração de todos os órgãos que têm a responsabilidade pela segurança pública, para que se impeça a chegada de drogas e armas que não são produzidas no Estado do Rio de Janeiro. Itagiba disse, ainda, que “as comunidades carentes, formadas 99% por pessoas de bem e ordeiras, precisam ajudar a polícia, informando ao Disque-Denúncia, sob o mais absoluto sigilo, a localização dos bandidos e das suas armas”.

Marcelo Itagiba disse que a polícia do Rio não se sente humilhada pelo auxílio das Forças Armadas no combate ao crime, porque sempre houve uma grande cooperação entre elas. “Então, não nos sentimos humilhados de forma nenhuma. Podemos trabalhar em conjunto e de forma coordenada.

Recentemente, quando houve roubo de armamento das Forças Armadas, nós atuamos, recuperamos o mesmo e o devolvemos a elas. Agora, não é dever e nem vontade das Forças Armadas fazer esse tipo de atuação de policiamento e patrulhamento. Agora, ações pontuais e integradas a gente pode fazer”, acrescentou Itagiba.
Fonte: Trib Imprensa