Como atingir usuários de maconha que estão em dúvida sobre continuar usando ou não a droga

As evidências de uma variedade de intervenções eficazes que ajudam usuários de cannabis a parar ou diminuir o uso desta substância são cada vez maiores. A promoção de tratamentos específicos para o cannabis parece aumentar a propensão de usuários que procuram por tratamento e reduzir o estigma associado ao tratamento para abuso de drogas em geral. No entanto, há ainda, um grande número de usuários de maconha que apresentam problemas relacionados a este uso mas que relutam em procurar tratamento por dificuldades em parar e em admitir que seus problemas são decorrentes deste uso.

Há boas razões para acreditar que indivíduos com problemas pelo uso da maconha são sub representados nos locais para tratamento, pelo menos nos EUA. De acordo com o estudo populacional de 2002 (National Household Survey on Drug use and Health), 25.8 milhões de americanos com 12 anos ou mais referiram uso de maconha no último ano e 4.3 milhões destes (16,7%) referiram conseqüências negativas deste uso.

Dos indivíduos que eram abusadores ou dependentes de cannabis somente 360.000 (7,6%) referiram ter recebido tratamento para reduzir ou parar com o uso da maconha.

Em comparação, 24,3% dos indivíduos abusadores ou dependentes de cocaína e 18,2% dos indivíduos dependentes de analgésicos referiram ter recebido tratamento medicamentoso para estes problemas.

As razões mais comuns para a não procura por tratamento entre usuários de álcool e ou outras drogas foram:

1. Não estar preparado para parar de usar a substância.
2. Não ser capaz de arcar com os custos do tratamento.
3. O estigma relacionado ao fato de estar recebendo tratamento.

Outros estudos também citaram como principais fatores para a demora ou não procura de tratamento o estigma, constrangimento e negação em relação ao tratamento.

O Drinker´s Check Up (DCU) foi um programa de intervenção breve desenhado para estimar os prejuízos associados ao uso do álcool, avaliar o estigma do tratamento e promover mudanças nos usuários de álcool que se mostravam ambivalentes.

O DCU foi divulgado nos jornais e oferecido gratuitamente para alcoolistas que queriam descobrir os prejuízos associados ao uso do álcool.

Os anúncios enfatizam que o DCU era um programa confidencial, que não objetivava o tratamento e que o usuário de álcool decidiria o que fazer com os resultados de sua avaliação.

Na primeira entrevista foram coletados dados a respeito do uso do álcool e fatores de risco para abuso e dependência. Na 2a. sessão um terapeuta fornecia um feedback para o participante do estudo sobre os riscos relacionados ao uso do álcool a partir de uma entrevista motivacional. Este tipo de entrevista tinha como principal objetivo aflorar o questionamento do paciente em relação ao uso da substância a partir de seus próprios argumentos e ponderações, de modo empático e sem confrontos.

Os problemas relacionados ao uso do álcool diminuíram notavelmente e se mantiveram por pelo menos 18 meses após suas participações no estudo.

O estudo que discutiremos esta semana tomou o DCU como base e foi aplicado em abusadores ou dependentes de cannabis, na tentativa de interagir com indivíduos que estavam apresentando problemas relacionados a este uso mas que não se sentiam prontos para iniciar tratamento. Criou-se a hipótese de que o MCU (Marijuana Check Up) atrairia mais usuários ambivalentes do que os usuários que de fato procuravam tratamento para mudar seu comportamento em relação ao uso da maconha apesar das experiências negativas relacionadas a este uso.

Este artigo teve o intuito de responder a três questões:

1. O MCU atingiu indivíduos que faziam uso do cannabis de modo problemático e que estavam ambivalentes em relação à procura de tratamento?
2. Os indivíduos mais ambivalentes de fato aceitaram ou seguiram a intervenção?
3. O MCU atingiu a população de usuários e/ou diferiu daqueles indivíduos que voluntariamente realizaram tratamento para parar de usar cannabis?

Métodos

O estudo foi realizado na Universidade de Washington em Seattle. Os participantes eram adultos, usuários de maconha que telefonaram ou que expressaram interesse no MCU . Quinhentos e oitenta e sete adultos usuários de cannabis foram avaliados pelo telefone com a finalidade de serem incluídos ou não no estudo Dos indivíduos rastreados 214 (36%) preencheram 1 ou mais dos critérios de exclusão estipulados:

– Menos de 15 dias de uso do cannabis nos últimos 30 dias (n= 139)
– Abuso ou dependência de álcool e ou outras drogas (n= 38)
– Envolvimento em outros tratamentos para abuso de substâncias ou grupo de auto-ajuda (n= 25)
– Graves problemas psiquiátricos (n= 12)
– Problemas legais que poderia ter interferido no tratamento (n= 9)
– Planejava mudar nos próximos 12 meses do estudo (n= 8)

Dentre as variáveis incluíram-se o estágio de motivação, freqüência e duração do uso da droga, os diagnósticos de abuso e dependência de cannabis e as conseqüências negativas do uso da maconha. Na primeira entrevista o indivíduo foi avaliado a partir da seção de álcool e outras drogas do SCID (Structured Clinical Interview para o DSM-IV) com relação aos seus sintomas nos últimos 3 meses. Para se medir os problemas relacionados ao uso da maconha foi utilizada a escala de problemas relacionados à maconha (EPM). E, por fim, para se medir o quão pronto o indivíduo se encontrava para mudar o seu comportamento frente a droga, foi aplicada a escala RTC ou Readiness to Change questionnaire.
Fonte: Programa Álcool e Drogas (PAD) do Hospital Israelita Albert Einstein