Como atingir usuários de maconha que estão em dúvida sobre continuar usando ou não a droga – Cont.

Resultados e conclusões

1. O MCU atingiu indivíduos que faziam uso do cannabis de modo problemático e que estavam ambivalentes em relação à mudança em seus comportamentos?

Dos quinhentos e oitenta e sete adultos usuários de cannabis que foram avaliados pelo telefone com a finalidade de serem incluídos ou não no estudo, a média de idade foi de 30.24 anos (DP= 9.92) e foi predominantemente de homens da raça branca. Eles fumaram uma média de 2 a cada 3 dias no mês, com uma freqüência de 3 ou mais vezes no dia. Aproximadamente 22% destes, usavam outras drogas além da maconha e aqueles que referiram fazer uso do álcool o fizeram em quantidades moderadas. A maioria se classificou com pertencente ä fase de pré-comtemplação (45%) ou contemplação (22%). Problemas legais relacionados ao uso do cannabis foram infreqüentes.

2. Os indivíduos mais ambivalentes de fato aceitaram ou seguiram a intervenção?

Dos 373 indivíduos que apresentavam critérios para participar do estudo, somente 188 (50%) participaram da sessão inicial. Foi feita uma comparação entre os indivíduos que passaram pelo screening (rastreamento inicial) e não participaram do estudo com os que completaram o screening inicial e deram seguimento ao estudo a fim de analisar se os participantes mais interessados e ambivalentes foram os que mais participaram da intervenção.

Todas as comparações foram feitas utilizando o método Qui-quadrado.
Os indivíduos que realizaram o screening inicial e deram seguimento ao projeto eram aproximadamente 4 anos mais velhos do que os que não deram seguimento. A diferença mais marcante entre os grupos se deu em relação à fase de mudança; enquanto que 60% dos indivíduos que não deram seguimento ao projeto estavam no estágio de pré-contemplação, 40% dos que continuaram no projeto estavam na fase de contemplação. De modo geral, 70% dos indivíduos que chegaram ao final do projeto encontravam-se ou na fase de pré-contemplação ou contemplação.

3. O MCU atingiu a população de usuários que diferiu dos indivíduos que voluntariamente realizaram tratamento para parar de usar cannabis?

Os autores haviam feito a hipótese de que o MCU seria um programa adequado para atrair usuários que eram ambivalentes em relação a mudança de seus comportamentos perante a maconha mas que não procurariam outros programas de tratamento voltado a sintomas de abstinência.

Para realizar esta comparação, o MCU foi comparado ao MTP, ou seja, Marijuana Treatment Project que foi um programa também realizado em Seattle, no mesmo período, porém voltado ao tratamento de indivíduos dependentes de cannabis.

A partir desta comparação, evidenciou-se que os indivíduos da amostra em tratamento (MTP) eram mais velhos (média de 35 anos de idade) do que os indivíduos da amostra da MCU (média de 30 anos); fumaram uma média de 5 dias a mais no mês do que os indivíduos do MCU (24.80 dias e 21.17 dias respectivamente) fumaram mais vezes no dia (3.56 comparado a 2.83 vezes respectivamente) e tiveram mais tentativas prévias de tratamento (12,9% e 1,2% respectivamente).

Em contrapartida, os participantes do MCU quando comparados ao MTP apresentaram mais problemas legais (12,3% e 4% respectivamente) e tenderam a utilizar outras drogas mais do que os indivíduos que estavam em tratamento para o uso do cannabis.

Os indivíduos do MCU estiveram mais no estágio de pré-contemplação e menos nos estágios de contemplação e ação do que os indivíduos participantes do MTP. Os indivíduos participantes do MTP também preencheram mais critérios de abuso e dependência e tiveram pontuações mais altas na escala de problemas relacionados ao uso do cannabis.

Os participantes do MCU eram usuários quase que diários de maconha sendo que 2/3 deles estavam nos estágios de pré-contemplação e contemplação. Estes indivíduos apresentaram menos problemas relacionados ao uso do cannabis e demonstraram estar menos prontos para mudar seus comportamentos em relação à droga quando comparados aos indivíduos em tratamento para abuso ou dependência de cannabis, apesar de semelhantes quanto ao padrão do uso.

O MCU atraiu e envolveu usuários quase que diários de cannabis, que tiveram experiências negativas, mas que eram ambivalentes sobre continuar ou não fazendo uso da substância. Um típico participante do MCU eram um indivíduos beirando os 30 anos, que fumava maconha quase que diariamente, várias vezes ao dia.

O MCU pareceu ter um papel importante para atrair indivíduos usuários de cannabis devido à sua característica de não julgar estes indivíduo e de oferecer um retorno pós check-up não voltado para a necessidade do tratamento ou de induzir o indivíduo a parar de utilizar a substância. Esta proposta tornou o MCU menos estigmatizante e ameaçador ao usuário ambivalente.

Podemos concluir que programas de check-up como o MCU são de fundamental importância para reduzir, indiretamente, as barreiras à procura por serviços especializados em abuso ou dependência de substâncias.
Fonte: Programa Álcool e Drogas (PAD) do Hospital Israelita Albert Einstein