O Drogado – Porque o dependente de drogas ainda não recebe o apoio que merece

O dependente de substâncias psicoativas, vulgarmente denominado drogado, vem recebendo atenção crescente por parte da Ciência. O interesse remonta ao início do século XX, ganhou impulso na segunda metade e nos últimos vinte e cinco anos, um entendimento mais criterioso, desprovido de preconceitos e formulações meramente morais.

O tratamento também vem se sofisticando. No limiar do século XIX, as propostas terapêuticas eram excludentes: internações prolongadas (por vezes vitalícias) em grandes manicômios. Eram casos terminais, complicados por seqüelas físicas e psíquicas decorrentes do uso. Essa realidade permeou o século XX até os anos sessenta. A partir de então, o consumo de passou a ser encarado com mais rigor científico. Além disso, a Psiquiatria se movimentava em direção à desinstitucionalização, fechando manicômios e buscando alternativas ambulatoriais para seus pacientes.

Com o dependente de drogas a coisa não foi diferente. As opções de tratamento preconizadas hoje são eminentemente comunitárias. O ambulatório é a primeira escolha para aqueles que buscam auxílio nesse sentido. O Brasil vem aos poucos se integrando a essa nova realidade. Mais de cento e vinte ambulatórios públicos especializados em dependência de substâncias psicoativas serão organizados em todos os estados do país durante o próximo ano, sendo mais de trinta no estado de São Paulo. Há algumas experiências interessantes como a formação de agentes comunitários e de moradias assistidas. As internações têm sido realizadas por curtos períodos, visando principalmente à desintoxicação e ao planejamento das estratégias ambulatoriais futuras.

Mas ainda é pouco. Isso reflete a atenção que o problema vem merecendo de nossa sociedade. Não faz muito tempo, apenas as universidades possuíam centros especializados de tratamento. É comum observar organizações da sociedade civil de interesse público (ONGS) da área fecharem suas portas por falta de parceiros. A preocupação das empresas com a questão da dependência química entre seus funcionários vêm aumentando progressivamente, bem como a adoção de posturas mais compreensivas frente a emergência do problema entre os seus. Mas ainda não apóiam grandes iniciativas nessa área, pelo menos abertamente. Não há “empresas amigas do dependente químico”. Os profissionais da área pouco se mobilizam em busca de recursos ou de espaço na mídia. A postura é sempre reativa, correndo atrás do prejuízo e da escassez de recursos. Não se adota uma postura pró-ativa, voltada ao planejamento e ao cumprimento de metas.

A mentalidade vigente também tem se mostrado um importante entrave. A figura do dependente químico é hoje de domínio público. Novelas, reportagens, entrevistas, mas o dependente ainda pede que ocultem seu rosto. Não me lembro de ter assistido uma entrevista com pacientes falando seu problema com a hipertensão, diabetes ou osteoporose com uma tarja em sua face. Tal situação se repete apenas quando se entrevistam bandidos ou alguém que denuncia algum esquema de contravenção. Por que essa mentalidade ainda vigora? Por que o dependente de substâncias psicoativas para muitos ainda não passa de um drogado? “Sim, é um doente, mas se levasse um tiro na bocada seria um alívio para muitos”, ainda pensa veladamente um grande número de indivíduos.

Se os manicômios estão próximos da extinção, a mentalidade que os criou ainda vigora. Cabe aos profissionais da saúde e à sociedade organizada trazer à tona a outra realidade. Ela não significa cumplicidade, tampouco benevolência e apologia. Pelo contrário. Trata-se do entendimento da dependência como uma doença que se manifesta muito além do consumo de drogas, mas fundamentalmente na mudança do estilo de vida. Um novo estilo que se manifesta e se propaga dentro de ambientes que pouco o entendem e por isso simplesmente o apedrejam. Há um silêncio portador de graves conseqüências entre nós.

Há uma mudança de mentalidade a ser implantada. Isso acontece sempre que uma família resolve buscar informação ao invés de tomar atitudes impulsivas e apaixonadas; sempre que um novo ambulatório é aberto (esse é o melhor lugar); sempre que os profissionais ligados ao tratamento das dependências resolvem se reunir periodicamente para discutirem as estratégias de sustentabilidade do serviço e maneiras de sensibilizar a comunidade para o problema; sempre que um jornalista consulta várias fontes antes de abordar o problema; sempre que juízes e promotores resolvem ouvir a opinião de especialistas acerca da questão criminalidade e consumo de drogas; sempre que empresas resolvem apoiar abertamente a causa e financiar iniciativas planejadas no âmbito da dependência. Enfim, um problema cuja solução passa e está ao alcance de todos.
Fonte: Programa Álcool e Drogas (PAD) do Hospital Israelita Albert Einstein