Mistério na verde-e-rosa

Quinze policiais do Serviço Reservado (P-2) do 4 BPM (São Cristóvão) fizeram ontem buscas no Morro dos Telégrafos, onde estaria o corpo do presidente da bateria da escola de samba da Mangueira, Robson Roque, de 43 anos. Segundo denúncias, ele teria sido assassinado na madrugada de ontem, no alto da favela, que faz parte do Complexo da Mangueira. As denúncias informavam ainda que a vítima teria sido esquartejada e queimada por traficantes.

O Disque-Denúncia também recebeu um telefonema às 8h36m de ontem, informando que Robson teria sido morto por traficantes numa localidade conhecida como Pedra, no alto do Morro dos Telégrafos. O motivo do desaparecimento de Robson teria sido a eleição para a rainha da bateria da escola de samba: Amanda Almeida Mattos foi escolhida e o tráfico, segundo as denúncias, queria que o posto fosse ocupado por outra jovem, também nascida e criada na Mangueira. As ameaças ao presidente da bateria teriam partido de um traficante identificado apenas como Gordo e começado logo depois da eleição, na sexta-feira passada. As duas mulheres são passistas e estão fazendo apresentações fora do Rio.

Até agora nenhum parente do sambista registrou queixa de desaparecimento na 17 DP (São Cristóvão). Mesmo assim, a Secretaria de Segurança Pública divulgou uma nota informando que a delegacia vai assumir a investigação do caso. Pela manhã, policiais do 4 BPM fizeram incursões na favela.

Presidente descarta ação do tráfico

Por volta das 15h, o presidente da escola de samba, Álvaro Luiz Caetano, deu uma entrevista na quadra da Mangueira, comunicando o desaparecimento. Álvaro informou que Robson desapareceu no início da noite de anteontem. Ele disse não acreditar que o presidente da bateria tenha sido assassinado por traficantes de drogas por causa da eleição da rainha da bateria.

Não existe essa possibilidade. Foi uma eleição que agradou a todos. Ela foi escolhida por um júri de 13 pessoas, incluindo integrantes da comunidade, da imprensa e da diretoria da escola. Todos da Mangueira gostaram de ela ter sido eleita ? disse Álvaro Luiz.

Ele contou que, na sexta-feira passada, quando houve a eleição para a rainha da bateria, não ocorreu qualquer problema:

As meninas se candidatam e o júri vota. É um voto aberto. Todos dizem em voz alta quem é a escolhida. O Robson não era jurado, não poderia escolher nem uma nem outra, disse.

Álvaro Luiz deu a entrevista ao lado de integrantes da diretoria da bateria da escola. Robson foi eleito em maio, por aclamação, presidente da bateria. Nos últimos dois anos, ele ocupou o cargo de vice-presidente. Robson ingressou na escola há muitos anos. Fez parte da bateria mirim e da bateria principal. Depois assumiu um cargo administrativo. Foi ainda diretor de patrimônio antes de ser vice-presidente.

O presidente da Mangueira contou ainda que o desaparecido tinha uma reunião hoje com integrantes da escola:

A mãe do Robson foi internada. Ninguém tem notícias dele. Volto a repetir que não acredito nessa versão de assassinato, disse ele.

Alguns moradores do Morro dos Telégrafos, no entanto, confirmaram a versão de que Robson foi assassinado por traficantes da Mangueira.

Todo mundo sabe que o tráfico é parte integrante da bateria da escola. Se não foi por causa da escolha da rainha, deve ter sido por outro motivo. A comunidade sabe que ele foi “queimado” ? disse um comerciante do Morro dos Telégrafos, que pediu para não ser identificado.

Até o início da noite da ontem, nada havia sido encontrado pelos policiais.

Nós suspendemos as buscas porque esgotamos todas as possibilidades com as informações que tínhamos – disse o comandante do 4 BPM, tenente-coronel César Tanner.

Bandidos teriam feito julgamento

Robson foi visto pela última vez na quadra da Mangueira anteontem à noite. Ele saiu por volta das 23h, dizendo que ia em casa, tomaria um banho e retornaria para a quadra. Ainda segundo as denúncias, os traficantes abordaram a vítima na Rua da Prata, acesso ao Morro dos Telégrafos, e o levaram para o alto da favela. Lá, os criminosos montaram uma espécie de tribunal. Robson teria sido julgado e condenado. O secretário estadual de Esportes, Francisco de Carvalho, o Chiquinho da Mangueira, esteve na quadra ontem de manhã. Ele disse que sabia apenas do desaparecimento de Roque.
Fonte: O Globo