Por que Pelé e Maradona não sossegam?

Agência Placar

SÃO PAULO – Não é o passar do tempo longe da bola que leva os dois maiores gênios do futebol mundial ao anonimato. Sempre polêmicos, Pelé e Maradona tiveram cenas distintas, em 2004, nos palcos onde foram consagrados. Em julho, o Rei deixou o Maracanã aclamado por uma multidão, num momento histórico do esporte brasileiro – foi o condutor inicial da tocha dos Jogos de Atenas, quando pela primeira vez o símbolo olímpico passou por uma cidade sul-americana. Antes, em abril, Diego havia saído de La Bombonera socorrido. A causa: suspeita de overdose pelo consumo de cocaína.

Maradona foi internado pela primeira vez em 2004 no dia 21 de abril. Apesar de o ano ainda estar em seu início, o argentino teve tempo suficiente para acirrar a velha rivalidade com Pelé. E o Rei deu munição suficiente para o velho rival. Um mês e meio antes, Pelé foi convocado para ajudar na escolha de 100 celebridades do mundo da bola para o centenário da Fifa. Era apenas uma lista com nomes dos maiores jogadores da história, na opinião do Atleta do Século. Pelé deixou de foras duas lendas do futebol nacional, Nilton Santos e Rivelino (aliás, na sua contagem inicial, o Brasil tinha 12 escolhidos, contra 13 italianos e 13 franceses). Teve que voltar atrás e inchar o grupo com outros 25 gênios da bola, entre eles Nilton Santos e Rivelino. ´O Pelé só sabe fazer demagogia e, além disso, sou mais bonito que ele´, alfinetou Diego Maradona, que se recusou a participar da festa e, assim, evitar o risco de ser obrigado a posar para uma fotografia ao lado do desafeto.

Pelé tentou por diversas vezes justificar a escolha dos nomes e a exclusão de Nilton Santos e Rivelino. ´Eu queria ter escolhido mil jogadores, mas só podia indicar cem. Somente no Brasil existem mais de cem craques´, afirmou o Rei, cuja lista inicial dos craques brasileiros constava com: Cafu, Carlos Alberto Torres, Djalma Santos, Falcão, Júnior, Rivaldo, Roberto Carlos, Romário, Ronaldinho Gaúcho, Ronaldo, Sócrates e Zico. Faltaram mais celebridades na relação de Pelé que, apesar dos protestos, não conseguiram convites para a festa, como Jairzinho, Zagallo e Gérson – este chegou a rasgar a lista em um programa de televisão, inconformado. Sobraram nomes obscuros na lista, caso do coreano Hong Myung Bo. Era preciso fazer uma ´média´ com os países afiliados da Fifa, e Pelé emprestou seu nome à manobra.

Se alguém acredita em superstição, algum dos excluídos por Pelé deve ter rogado praga, pois o Rei voltou às pressas de Zurique, onde ocorreu a festa da Fifa, e foi internado no Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, com descolamento de retina no olho esquerdo. A cirurgia, conduzida pelos médicos Marcelo Cunha e Walter Tahahashi, levou cerca de duas horas e o ex-jogador precisou de anestesia geral.

Novos negócios

O problema no olho esquerdo levou Pelé a negociar até a possibilidade de confeccionar óculos que levassem sua grife. Era a abertura de novos horizontes financeiros para o Rei, disposto a pôr fim na polêmica carreira de empresário de futebol. No início de maio, ele havia anunciado o fim de sua agência de marketing esportivo, a Pele Pró, com uma dívida calculada em aproximadamente 1,5 milhão de reais. O ex-jogador alegou precisar de mais tempo para ficar com a família e a decisão foi consolidada com a cirurgia no olho, pelo fato de necessitar de tempo para se recuperar e, assim, reduzir o número de suas aparições em público.

O Rei deixou conturbadas sociedades. Com o fim da Pelé Pró, por exemplo, distanciou o relacionamento com o médico e parceiro Renato Duprat. O ex-jogador anunciou ter planos de conduzir sozinho os negócios milionários de publicidade gerados pelo seu nome, que ainda rende fortunas. Em novembro último, a camisa 10 usada por ele na final da Copa de 1958 foi leiloada, em Londres, por cerca de 105 mil dólares, dinheiro pago por um colecionador não-identificado. O valor, contudo, é menor do que o arrecado com a camisa usada na final da Copa de 1970 – em um leilão realizado em 2002, a amarelinha foi arrematada por 283 mil dólares.

As críticas de sempre

Pelé pode ter mudado o foco de seus negócios, mas continuou com sinais claros de não estar disposto a abandonar polêmicas, inclusive políticas. Por exemplo, criticou o Estatuto do Torcedor, citando que a lei aprovada no início da gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ´é uma utopia´ e deixou dúvidas de que a legislação será cumprida, ao citar que são grandes as chances de ´ela não pegar´.

Ao mesmo tempo em que anunciou o fim da Pelé Pró e, por conseqüência, da possibilidade de gerenciar a carreira de novos craques, Pelé criticou também os jogadores que entregam seus contratos a empresários profissionais. Chamou os atletas de burros e desunidos, ao aceitarem atraso no pagamento de salários. Aconselhou greve em campo como instrumento de moralização. ´Sem futebol no final de semana isto aqui vira um caos e a aí a situação pode melhorar´, disse.

Em 2004, Pelé marcou um golaço. Aliás, o chute para as redes foi de Aníbal Massaini Neto, Pelé fez só a assistência, o passe certo que deixou o cineasta na cara do gol, com o lançamento do documentário Pelé Eterno.

Por exemplo, os garotos de hoje que não têm conhecimento da importância do milésimo gol, aquele de 1969 marcado de pênalti sobre o Vasco, no Maracanã, não sabiam, até a chegada da fita aos cinemas ou do DVD nas videolocadoras, da euforia mundial por aquele momento. Da multidão arrastada aos estádios, pela torcida de quando e onde seria registrado mais este feito do Rei.

Pelé Eterno é um daqueles clássicos que valem o preço do ingresso. Ao todo, são mais de 300 gols, muitos golaços. Narra histórias que os torcedores de hoje pouco sabiam, como o fato de Pelé ter interrompido seu início de carreira para servir o Exército, do constrangimento de ter um pedido de autógrafo enquanto montava guarda de sentinela – aliás, garantiu um título para o Brasil em um torneio para militares. O filme faz o torcedor-espectador sofrer diante das imagens do jogador caçado em campo pelos portugueses na Copa do Mundo de 1966 – como Pelé apanhou naquele jogo…

Memória resgatada

O documentário brindou quem é fanático por gols com obras-primas jamais vistas pela maioria, como a arrancada diante do Fluminense, no Maracanã, que deu origem ao ´Gol de Placa´ ou ainda os famosos chapéus da Rua Javari, quando Pelé encobriu dois marcadores e o goleiro do Juventus antes de finalizar de cabeça, sem deixar a bola cair. Os dois lances foram reconstituídos com a ajuda de computadores e, para quem não viu ao vivo (quase todo mundo), ficou a certeza de que o Rei estava certo ao definí-los como os mais bonitos de sua carreira.

Nada neste filme é igualável ao gesto de Pelé provocando o goleiro do Boca Juniors na final da Taça Libertadores de 1963, em plena La Bombonera. O mesmo campo de onde, em abril deste ano, Maradona foi levado para uma clínica sob risco de vida.

O craque argentino ficou internado em Buenos Aires por quase cinco meses. Em uma de suas crises, provocada pela falta de cocaína, foi amarrado. Precisou de autorização judicial para voltar a Cuba, onde já se tratava há anos contra a dependência química. Uma imagem triste originada nas tribunas do mesmo estádio onde marcou gols geniais – que podem ser apreciados no DVD lançado por Placar. E onde, 21 anos antes, a própria torcida argentina havia se rendido à genialidade de seu maior desafeto. Para Pelé e Maradona, 2004 foi um ano de contrastes.