ATP lança linha de suplementos livres de dopping

Órgão se associa a laboratório para lucrar combatendo a trapaça

Patricia Jolly
Em Paris

Uma seleção de complementos alimentícios garantidos como livres de qualquer substância dopante: é a novidade que está sendo proposta, neste começo de ano, pela ATP (Associação dos Tenistas Profissionais). Uma linha de cinco produtos –três bebidas energéticas ou de recuperação, um gel e tabletes nutricionais sabor laranja– estão daqui para frente à disposição dos jogadores, que podem adquiri-los pelo site da ATP.

A linha de produtos foi desenvolvida e produzida pelo laboratório farmacêutico GlaxoSmithKline (GSK) e testada pelo laboratório da Newmarket (Inglaterra), credenciado pela Agência Mundial Antidoping (AMA).

A iniciativa cujo lançamento oficial coincide com o início do Aberto da Austrália (de 17 a 30 de janeiro), surge em conseqüência de um caso negativo que gerou uma publicidade embaraçosa para a ATP, obrigando este organismo a reagir prontamente.

A ATP havia admitido publicamente a distribuição, pelos seus próprios médicos, durante alguns torneios, entre junho de 2002 e maio de 2003, de complementos suscetíveis de conter substâncias dopantes. Sete jogadores do circuito, que foram controlados como positivos no uso de nandrolona (um esteróide anabolizante), haviam sido “perdoados” em função das dúvidas que foram introduzidas pela confissão da ATP.

O caso havia alcançado o seu paroxismo em janeiro de 2004, depois de o britânico Greg Rusedski, antigo número 4 mundial, ter anunciado que ele havia sido controlado como positivo no uso de nandrolona em julho de 2003. A infração poderia ter-lhe valido cerca de dois anos de suspensão, o que, aos 30 anos, teria precipitado o fim da sua carreira.

Os advogados do jogador haviam argumentado que o doping ocorrera por inadvertência, tendo sido provocado pelos produtos fornecidos pela ATP, embora esta tivesse retirado os complementos suspeitos do circuito desde maio de 2003. Diante da falta de provas em relação à duração da ação destes produtos, o britânico foi absolvido.

A ATP havia então constituído um grupo de trabalho composto por uma dezena de jogadores em atividade, entre os quais Andre Agassi, Greg Rusedski e o britânico Tim Henman, além de treinadores, organizadores de torneios, médicos e juristas. Este grupo foi presidido pelo dinamarquês Jan Leschly, número 10 mundial no ranking da ATP em 1967 e ex-dirigente do grupo farmacêutico SmithKline Beecham.

A sua missão? “Desenvolver soluções no curto e no longo prazo para ajudar os jogadores a lidarem com os riscos inerentes ao consumo de vitaminas e de complementos nutricionais e minerais”.

Em novembro de 2004, o grupo havia chegado à conclusão de que era necessário lançar uma linha de complementos alimentícios concebidos especificamente para o circuito da ATP, tarefa esta que foi confiada à GlaxoSmithKline.

“Operação comercial”

Enquanto a decisão da ATP, que foi apoiada pela Federação Internacional de Tênis (cuja sigla em inglês é ITF), parte de um sentimento louvável, o fato de colocar à disposição dos jogadores uma linha de complementos alimentícios, sob o pretexto de melhor controlar a sua proveniência e a sua composição, equivale também a incentivar o seu consumo, e até mesmo a afirmar que eles são indispensáveis para a prática deste esporte, no seu mais alto nível.

O argumento não é nem um pouco apreciado pelos dirigentes da Agência Mundial Antidoping (AMA). Esta entidade elaborou um relatório sobre os oito casos de doping da ATP, no qual ela insiste sobre o fato de que ela não teve nenhuma participação no acordo que vincula o laboratório GSK à instância esportiva.

“O problema dos complementos é muito sensível”, explica David Howman, o diretor geral da AMA, “não apenas por causa das questões de contaminação, mas também por causa dos problemas envolvendo a falsificação desses produtos, além das outras questões de saúde, que são primordiais”.

Para Gérard Dine, professor de biotecnologia na Escola Central, encarregado do acompanhamento biológico dos jogadores de tênis franceses, esta iniciativa da ATP constitui um progresso.

“Cabe às instâncias esportivas preencher as lacunas jurídicas. Contudo, me parece que o Comitê Olímpico Internacional (COI) deveria ter tomado esta iniciativa primeiro”, estima Dine.

“Ao criar uma linha de complementos seguros quando, no caso, esse tipo de produtos serve de elemento de introdução para um verdadeiro doping, o que ocorre já faz muitos anos, a ATP responde ao problema que a abalou e ela mata dois coelhos com uma só cajadada”, prossegue. “A esta operação que visa a garantir a ´limpeza´ desses produtos e a este controle de segurança mantido por meio da exclusividade, acrescenta-se uma operação comercial que retoma procedimentos tipicamente americanos. Ela beneficia ao mesmo tempo a imagem da ATP, que prova com isso que ela é mesmo capaz de resolver os problemas, e a da GSK, que mostra assim que ele oferece produtos saudáveis”.

O debate está longe de chegar à sua conclusão, uma vez que a AMA promoverá em Leipzig (Alemanha), nos dias 3 e 4 de maio, em cooperação com o governo alemão e o Comitê Olímpico Internacional, um simpósio sobre a utilização dos complementos alimentícios. A sua eficiência permanece controvertida.

Assim, enquanto ele se dissera satisfeito com o anúncio do lançamento desta linha de complementos de qualidade garantida, em novembro de 2004, o número um mundial, o suíço Roger Federer, mesmo assim não se mostrou muito entusiasmado: “Não sei se eu os utilizarei, mas trata-se de uma boa notícia para os jogadores”, disse.

Apesar dos problemas que ele teve de enfrentar, Greg Rusedski, por sua vez, continua sendo um partidário incondicional dos complementos. No início de janeiro, no torneio de Doha (Qatar), ele havia se queixado da comercialização, segundo ele por demais tardia da linha com o selo de garantia ATP/GSK.

“Eu tentei encomendar alguns desses suplementos, mas ainda não os recebi”, lamentou. “Nós estávamos prevendo que eles estariam disponíveis em dezembro, isso porque o nosso organismo, em certos casos, pode demorar até dois meses para assimilá-los. O Aberto da Austrália acontece durante o período o mais quente do ano, e era de se esperar que essa ´coisa´ estivesse disponível em tempo hábil, de modo a poder remediar a este problema”.

Gaël Monfils, 18, vence o americano Ginepri

O suíço Roger Federer (número 1 mundial) dominou sem surpresa o francês Fabrice Santoro (6-1, 6-1, 6-2) na primeira rodada do Aberto da Austrália, nesta segunda-feira (17), em Melbourne. Por sua vez, o também francês Gaël Monfils, que estava competindo no mesmo dia, sendo beneficiário de uma “wild card” para a sua primeira participação no torneio, conseguiu a qualificação para a segunda rodada, não sem dificuldades.

Vencedor do americano Robby Genepri (1-6, 6-3, 6-4, 7-6 -8-6-), o francês de 18 anos obteve finalmente a vitória graças ao seu serviço.

Autor de 15 aces, contra 3 para o seu adversário, ele também acumulou uma maior quantidade de serviços vencedores. No fim das contas, Gaël Monfils venceu por ter concedido menos pontos: 125 contra 131 para Robby Ginepri. Ele enfrentará na segunda rodada o vencedor da partida em que se enfrentarão o belga Olivier Rochus e o alemão Nicolas Kiefer.

O americano Andre Agassi (nº 8), cuja participação neste torneio esteve incerta por um momento, não teve dificuldade para superar o alemão Dieter Kindlmann (6-4, 6-3, 6-0).

Na chave feminina, a principal surpresa veio da derrota da francesa Mary Pierce (nº 24) frente à sua compatriota Stéphanie Cohen-Aloro (6-2, 6-2).

Tradução: Jean-Yves de Neufville

Fonte: Le Monde