Drogas: o poder destruidor do crack

Uma droga mais devastadora que a cocaína! O psiquiatra Jairo Bouer discute agora um veneno chamado crack.
“Eu sabia que estava fazendo mal, mas a droga tem aquele lado do prazer, né? Aquela sensação, mas a gente fala que é só mais uma vez”, conta um ex-usuário de drogas.

No capítulo anterior da série sobre drogas, você conheceu um trecho da história desse jovem.

“Para mim, usar droga era ser diferente. Eu era o cara e os caretas eram os bobos”, conta.

Dos 17 aos 29 anos, ele foi dependente de álcool, cocaína.

“Eu fui internado mais duas vezes. Na terceira vez eu falei: desisto. Vou começar a usar crack”, diz o jovem.

Crack também é cocaína? O crack é um estimulante derivado da cocaína. É disponível em forma de pedra e pode ser fumado, o que o torna ainda mais poderoso que a cocaína. É uma droga rápida e muito intensa.

A fumaça do crack que chega aos pulmões é absorvida instantaneamente. Cai no sangue e chega muito rápido ao cérebro. Os primeiros efeitos ocorrem entre 10 e 15 segundos depois de fumar. A duração dos efeitos também é muito rápida. Cerca de 5 minutos.

A compulsão por utilizar a droga também é muito forte.

“Tem gente que começa a ficar viciada e começa a vender as roupas, rouba a mãe, não consegue trabalhar, ser sociável”, contam alguns jovens.

Caso extremo de dependência é do vocalista Scott Weiland, do Stone Temple Pilots, que hoje está no Velvet Revolver. Ele já usou cocaína, álcool, barbitúricos, até chegar na heroína e no crack. Já foi preso, internado e, hoje, diz que superou o vício. Mas a desconfiança é tanta que os integrantes da banda dele o brigam a fazer um teste de urina toda semana para garantir que ele continua limpo.

Casos graves como o de Scott Weiland são rotina na vida do psiquiatra Ronaldo Laranjeira. Numa das suas pesquisas mais importantes, ele acompanhou por cinco anos um grupo de 138 usuários de crack.

“Foram os primeiros usuários de crack na década de 90. Depois dos cinco anos, cerca de 30% deles morreram. Mais de 90% foram mortes violentas. Menos de 10% foram mortes causadas pelo próprio crack, no sentido de overdose”, diz Laranjeira.

“Dia e noite eu passei a usar droga, só pensando na morte. Até que um dia eu tive um princípio de overdose e aí eu comecei o tratamento de novo. Só que aí eu já tinha virado bicho. Brigava com o psicólogo, psiquiatra, recepcionista, no acolhimento. Isso foi uns três anos direto. Agora estou há dois anos sem drogas, nem bebida. Para mim é uma situação muito louca. Porque eu vejo o mundo careta como meio louco. E o louco é normal. Eu só vivia na droga. É bem louco ficar careta. Eu dou muito valor quando eu vou cozinhar, tomar um banho, colocar uma roupa limpa, traçar uma idéia com uma pessoa. Tem os problemas da vida, mas faz parte”, diz o ex-viciado.

Da rua, para as casas da classe média. Foi isso que aconteceu com o crack e também com outro tipo de droga: os solventes.

“Isso foi um dado de uma pesquisa nossa com estudantes universitários, em que a gente comprovou que, depois do álcool, a substância de maior abuso eram os solventes. Isso causou muita surpresa. A gente encontra diversos solventes: benzina, acetona, lança-perfume, líquido de isqueiro”, diz o psiquiatra da Unifesp Dartiu Xavier.

“Ontem mesmo fui numa balada e fiquei abismada com a quantidade de gente cheirando lança-perfume”, conta uma jovem.

O lança-perfume chegou ao Brasil em 1903, vindo da França. Eram pequenas garrafas de vidro ou de metal, cheios de uma substância chamada cloreto de etila. No carnaval só dava lança-perfume. Mas um decreto do então presidente Jânio Quadros, em 1961, proibiu a droga. Mesmo ilegal, até hoje o lança-perfume aparece nas baladas.

“São caixas com 12 tubos de lança-perfume normalmente. Elas mandam vir da Argentina mesmo”, diz um jovem.

Inicialmente, a gente pensou que seria algo restrito a determinadas festividades, jogos, carnaval e, para nossa surpresa, não era. Era uma coisa de uso em festas, na festa do final de semana, da mesma forma como se usa o álcool se usa também o solvente.

“Eu nunca tinha experimentado, usado, tinha medo até. Aí estava todo mundo sentado conversando e aí o pessoal estava usando. Aí eu olhei para a cara do meu amigo e falei: o que dá isso? Ele me falou que era uma doideira de 15 segundos e espirrou na minha boca. Eu falei que não estava dando efeito. Espirrou de novo e nada. Espirrou de novo e aí eu desmaiei”, conta outro jovem.

Qual o perigo do lança-perfume? “Você corre um risco de ter uma arritmia cardíaca, seu coração parar de bater e você morrer”, alerta o doutor Xavier.

O coração até é muito resistente. O problema é que ele não foi feito para trabalhar na presença destas substâncias”, explica o cardiologista Almir Sérgio Ferraz.

No próximo capítulo da série “Drogas: a onda química”, vamos falar do LSD, a droga das viagens psicodélicas, e da heroína, a viagem sem volta. Não perca.

Fonte: Fantástico