Tratamentos e legislação

“Todo mundo já foi parado pela polícia, revistado. Perguntam, cheiram a mão, abrem o porta-malas do carro, pedem pra tirar os óculos, olha no olho”, conta Portuga, baixista do CPM 22.

“Eu já fui parado no Brasil e em Wellington, na Nova Zelândia. Eles tiraram todos os meus discos da capa para ver se tinha alguma coisa”, conta o DJ Marky.

Sander Mecca, 22 anos, ex-vocalista do grupo Twister. Você se lembra dele?

“Eu fui um adolescente bonzinho, estudante, bom aluno, depois eu conheci as drogas e virei ´porra-lôca´, Logo virei pop star. Passei a usar mais droga e vim a ser preso”, conta Sander.

Sander foi preso no dia 25 de outubro de 2003. Condenado a quatro anos por tráfico de drogas, cumpre pena na penitenciária Belém II, em São Paulo.

“Eu tava num barzinho. Eu ia comprar dois ecstasys e dois LSD pra tomar depois daquele bar. O traficante que eu comprava neste bar Ele deixava embaixo do cesto de lixo uma cigarreira com as drogas. Foi aí que eu fui preso, porque eu estava comprando no banheiro do bar e o segurança me viu com aquelas drogas e começou a falar que eu estava vendendo. Eu falei que não era traficante, era usuário”, conta Sander.

“Hoje, o porte de drogas ainda está criminalizado. Você vai decidir se ele é usuário ou se é um traficante pelas circunstâncias da prisão, pela quantidade de drogas apreendidas, pelo local da prisão”, explica Ivaney Cayres, do Departamento de Narcóticos de São Paulo.

“O primeiro intérprete da conduta vai ser o policial. Aquela interpretação pode ser boa ou ruim”, esclarece Maurides de Melo Ribeiro, advogado criminalista.

A lei de entorpecentes vigente no Brasil é de 1976, época do regime militar. Em 2002, o Congresso modificou a lei, mas o então presidente Fernando Henrique Cardoso vetou todas as alterações na parte penal. Resultado: os dois artigos mais importantes, o 12 – tráfico – e o 16 – porte de drogas-, ficaram com o texto original da década de 70.

“No artigo 12, a pena prevista é de 3 a 15 anos. No artigo 16 é de 6 meses a 2 anos”, explica Maurides.

Quem for pego pela polícia com um cigarro de maconha, por exemplo, o que acontece? Ele é conduzido para a delegacia, é realizado o que chamamos de termo circunstanciado, é uma espécie de flagrante colocado juridicamente na condição de crime de menor poder ofensivo, é encaminhado para o juiz competente e ele vai estar sujeito às penas da lei.

“Mas o estigma vai ficar, a marca vai ficar pra sempre, sempre que ele pedir uma certidão, se ele quiser pedir um emprego, vai estar marcado lá, como que carimbado na testa dele – maconheiro”, critica Maurides.

“Eu tenho um caso de um sujeito que foi preso numa madrugada, não tinha nem um baseado, ele tinha uma ponta, que é aquele finalzinho do baseado. Estava guardado numa caixa de fósforos. Um dos agentes falou: ´Escuta, essa ponta está manchada de batom. Você fumou com quem?´. ´Com a minha noiva´, ele respondeu. Ele foi preso por tráfico”, exemplifica o advogado.

É no Senado que o novo projeto de lei sobre as drogas aguarda aprovação.

“Com certeza não é a lei ideal para todos. Sempre terá alguém que terá observações. Mas será um grande passo. Não vamos levar o usuário para a cadeia, ele não vai perder a liberdade, mas ele continua sendo penalizado, com medida educativas”, diz Paulo Roberto Uchoa, secretário nacional Antidrogas.

“Eu aprendi que as coisas realmente acontecem, aprendi a dar mais valor a quem realmente a gente tem que dar que é a nossa família”, alerta Sander.

A família, segundo os especialistas, é peça chave no tratamento e reabilitação de dependentes. Mas como falar sobre drogas com os filhos?

“O primeiro passo é o papo, o diálogo dentro da família, colocar o jovem dentro da roda, para ele enfrentar as dificuldades que ele pode estar passando e que a família também pode passar”, ensina a psiquiatra Ana Cecília Marques, da Unifesp.

E o que tem de novidade nos tratamentos?

“Existem muitas novidades, como os que controlam a fissura e a compulsão pelo uso de drogas, que é um dos principais fatores da recaída. Temos intervenções mais simples, de base comportamental que podem ser aplicadas na unidades básica de saúde do sistema público. E temos outros para cada tipo de drogas”, diz a psiquiatra.

E as tais vacinas?

“A vacina para cocaína, que está em fase experimental, evita que a cocaína exerça seu efeito. Então, na verdade, é mais ou menos como essas medicações que evitam o prazer da droga. O paciente precisa estar muito motivado, porque se não você não consegue convence-lo a tomar uma medicação que vai reduzir o prazer que ele obtém com a droga”, esclarece a professora Maria Lúcia Formigoni, do Departamento Psicobiologia da Unifesp.

“As grandes estratégias de tratamento são aquelas que utilizam recursos diversos, onde usa medicação, associada a psicoterapia, grupos de apoio, intervenção familiar”, analisa o psiquiatra Dartiu Xavier da Silveira, da Unifesp.

“Meu filho, tudo bem, se um dia eu vir ele fumando maconha, vou conversar com ele, a gente vai trocar uma idéia sobre o assunto. Eu tenho tanto amor pelos meus filhos, tanto amor, que acho que ninguém no mundo pode falar mais ou melhor sobre qualquer assunto, inclusive drogas, com eles do que eu”.

“O seu melhor amigo está dentro de casa, são seus pais, então acho que se abrir um pouco mais com eles pode ajudar muito”, aconselha o DJ Xerxes.

“Eu tanto amor pelos meus filhos que acho que ninguém pode falar melhor sobre drogas com eles do que eu”, afirma Marcelo D2.

Fonte: Fantástico