Consumo de remédio para impotência cresce entre jovens

Graciliano Rocha e Jacqueline Lopes

David Majella

Machado, que trabalha em uma farmácia 24 horas, diz que jovens são principais compradores

Quando chegou ao Brasil em 1998, o Viagra foi saudado por médicos e seus pacientes com dificuldades de ereção como uma pequena revolução comportamental. Um pequeno comprimido azul viria a tornar obsoletas as brochantes injeções no pênis e garantir qualidade de vida para milhares de homens afetados pela impotência sexual e, conseqüentemente, para suas parceiras. De maneira geral, foi o que aconteceu, mas junto com o Viagra e com toda a nova geração de medicamentos do gênero que surgiriam nos anos seguintes alguns mitos viriam a se galvanizar.

O principal deles é que estes remédios seriam populares somente entre os homens acima dos 40 anos com dificuldades de ereção. A verdade mostra o contrário. A pílula azul virou febre entre rapazes a quem o senso comum não atribui qualquer problema de disfunção erétil. Jovens campo-grandenses tomam Viagra e outros similares para turbinar o desempenho na cama, impressionar a(s) parceira(s) e não falhar na hora H. No mundo da prostituição local, homens também já aderiram aos medicamentos por “razões profissionais”.

A venda do Viagra ou do concorrente Cialis (nomes comerciais para o genérico sildenafil – vasodilatador) nas farmácias de Campo Grande tem dias e hora para acontecer. Grande parte das vendas destas substâncias é fechada nas noites e madrugadas de sexta-feira, sábado e domingo, e quem as compra são jovens de 18 a 30 anos, que vão até as farmácias 24 horas à procura do produto que os acompanhará na balada. “A gente vende de 2 a 3 caixas por noite, no fim-de-semana”, diz o balconista de farmácia Valter Machado. Comprimidos também são vendidos separadamente (R$ 26). “Depois de meia-hora já está na corrente sanguínea. A moçada toma para pegar de 2 a 3 mulheres numa noite”, acredita o vendedor. Na opinião de quem está atrás do balcão, a moçada está mesmo preocupada é com quantidade.

É um hábito de jovens endinheirados: a caixa do Viagra com apenas 4 comprimidos custa R$ 104,74, o Cialis é ainda mais caro, R$ 125,69. “Ninguém questiona o preço se está caro ou não. O negócio é resolver o problema”, diz.

Não há estimativas estaduais ou nacionais sobre o consumo destas substâncias por jovens, mas os donos de farmácias afirmam que mais da metade dos comprimidos azuis embale as
relações sexuais de homens que nem chegaram aos 30 ainda.

É gente como o veterinário Alexandre (*), 29 anos, freqüentador de academia, empregado e namorando firme há quatro anos. Precisar, garante ele, não precisa; mas que faz diferença, faz. “Aumenta o rendimento, sim, não tem dúvida”, atesta. Uso com a namorada? “Não, com ela não”. Com quem então? “Ah, quando pinta alguma diferente, só para garantir”. Ele diz que provou o “complemento” ainda na universidade, há uns três anos. De lá para cá, ele diz ter comprado “umas três ou quatro caixas do azulzinho”.

Felipe (*) tem 25 anos e uma opinião diferente. Experimentou o Viagra há quatro meses e diz que não voltou a tomar porque não sentiu diferença. A sua motivação é diferente do veterinário. Felipe é garoto de programa, usa anúncios em classificados de jornal para captar clientes.

“Eu só experimentei e não tomo mais, mas entre os meninos que fazem programa quase todo mundo usa. Acho que, no caso deles, é porque eles bebem ou usam drogas e isso afeta a performance”, especula.

(*) A pedido dos entrevistados, os nomes foram trocados.

Fonte: Campo Grande News