O buraco

Aquela cidade não era habitada por pessoas, mas por buracos.

Buracos viventes.

Havia buracos ostentosos, de mármore e buracos humildes, de tijolos.

Um dia chegou uma nova moda: o importante é o interior, não o exterior!

E foi assim que os buracos começaram a se encher de coisas…

De ouro e jóias.

Outros, mais práticos, de eletrodomésticos.

Alguns, de arte ou instrumentos musicais.

Os intelectuais encheram-se de livros.

A maioria dos buracos encheu-se a tal ponto que não cabia mais nada e para solucionar a situação, começaram a alargar-se.

Mas um pequeno buraco percebeu que se todos fizessem o mesmo, em pouco tempo a cidade se transformaria em um único buraco…

E todo mundo perderia a sua identidade.

Teve então uma idéia: pensou que uma outra forma de aumentar a sua capacidade seria aprofundar-se em lugar de alargar-se.

Mas percebeu que isso ser-lhe-ia impossível por causa de tantas coisas que ele já continha!

Decidiu, então, esvaziar seu conteúdo.

Primeiro teve medo do vazio, mas quando percebeu que não existia outra possibilidade, assim o fez.

Um dia, de tão profundo, achou água. Nunca antes outro buraco tinha achado água!

Nesse lugar quase nem chovia e a água extra permitiu que as paredes do buraco se cobrissem de verde, e assim, chamaram-no O Manancial.

Os outros buracos queriam a água, mas quando perceberam que teriam que se esvaziar, preferiram continuar a alargar e encher-se de coisas inúteis.

Outro buraco, no outro lado da cidade,conseguiu esvaziar e chegar à água, criando assim um oásis.

Os dois buracos perceberam que a água que tinham achado era a mesma.

Tinham, então, um novo ponto de contato…

A comunicação profunda que só conseguem entre si aqueles que tem a coragem de esvaziar-se de seus conteúdos e buscar, no fundo do seu ser, aquilo que têm para dar e compartilhar.