Ecstasy e comprometimento cerebral

“Severe dopaminergic neurotoxicity in primates after a common recreational dose regimen of methylenedioxymethamphetamine (MDMA)” (Science. 2002; 297:2260-2263.)

Artigo publicado na revista Science chama a atenção para uma possível associação entre o uso de ecstasy e a doenças neurodegenerativas. Os resultados indicam ainda que mesmo o uso recreacional ou terapêutico desta droga pode causar danos ao cérebro.

Introdução

Em 1914, o ecstasy foi lançado no mercado farmacêutico como inibidor de apetite no tratamento auxiliar da obesidade, sendo esse uso rapidamente abandonado em razão de seus efeitos indesejáveis.

Nas décadas de 1960 e 1970, o fato de outras substâncias como o LSD (dietilamida do ácido lisérgico) e a mescalina produzirem efeitos alucinógenos despertou em todo o mundo a atenção de pesquisadores, que se voltavam ao estudo do comportamento e dos transtornos mentais através dos estados psicóticos experimentais induzidos por essas substâncias. A característica que distingue essa classe de agentes psicoativos é a propriedade de induzir alterações da percepção que incluem alucinações e ilusões, bem como distúrbios nos pensamentos. O uso de alucinógenos (psicomiméticos) não possui características crônicas ou compulsivas. Em geral, é feito esporadicamente entre pessoas afins e segue um ritual. A expectativa dos efeitos estimulantes ou psicodélicos, quando do uso recreacional, é influenciada por fatores como personalidade, estado psíquico e efetividade.

Naquelas duas décadas, o ecstasy passou a ser usado por terapeutas sexuais no ajuste de casais e no tratamento da depressão, porém sem eficácia comprovada.

Na década de 1980, o ecstasy, um derivado das feniletilaminas e conhecido pela sigla MDMA, uma abreviação de sua fórmula 3,4-metilenodioximetananfetamina, reaparece como droga de uso recreacional, tornando-se popular em meados da década seguinte em danceterias ou festas noturnas (raves), onde passou a ser conhecida como a “droga do amor”, por liberar a afetuosidade do usuário, sem interferir na libido.

Sob efeito do ecstasy, os usuários relatam uma dupla sensação, de início sentem-se agradáveis, felizes, confiantes e sedutores. Esses efeitos euforizantes ou de completo bem-estar duram de seis a oito horas. No entanto, sintomas depressivos podem ocorrer entre 24 ou 48 horas após sua ingestão e podem durar até quatro dias.

Outros efeitos agudos produzidos pelo MDMA em doses baixas são palpitação cardíaca, boca seca e contrações na mandíbula. Em altas doses, os efeitos incluem alucinações visuais, déficit de memória, irritabilidade, ataques de pânico e aumento exacerbado da temperatura corpórea (hipertermia) acompanhada da necessidade de ingerir grandes quantidades de água.

Já os efeitos neurotóxicos do MDMA podem ser decorrentes do aumento da dose para obtenção dos efeitos euforizantes, expondo assim os usuários a maior risco de hipertermia. Além disso, existem fraudes nas preparações comercializadas ilicitamente, nas quais o MDMA é misturado com anfetamina, cocaína e heroína, sendo essa preparação denominada pelos usuários ‘ecstasy turbinado’.

Algumas das atuais discussões sobre o MDMA dizem respeito aos mecanismos envolvidos na neurotoxicidade cerebral e às conseqüências de seu uso para a saúde pública.

Estudos realizados em ratos mostraram que o ecstasy aumenta a liberação de serotonina e dopamina (neurotransmissores, responsáveis pela comunicação entre os neurônios). O uso prolongado de MDMA reduz os estoques de serotonina, e os neurônios dopaminérgicos também são prejudicados.

Método

Os autores deste estudo avaliaram o potencial neurotóxico do MDMA em macacos (Saimiri sciureus). Os animais foram tratados em esquema posológico: dose subcutânea de dois miligramas (mg) por quilograma (kg) de massa corporal a cada três horas, perfazendo um total de 6 mg/kg, equivalente às doses tomadas por usuários durante uma festa noturna, ressaltando, porém, que o uso recreacional é em geral feito por via oral (comprimidos).

A densidade dos transportadores de serotonina e dopamina foi medida através de radiografia utilizando o radioligante Beta-CIT (RTI-55) para transportadores de serotonina e WIN-35428 para os transportadores de dopamina. Marcador de prata foi usado para medir a degeneração axonal em um único macaco sacrificado 3.5 dias após o uso de MDMA.

Resultados e discussão

Medidas histológicas e radiográficas encontraram reduções moderadas de serotonina e de seus transportadores após a ingestão do regime de 3 doses de MDMA em todas as áreas corticais, porém especialmente no córtex frontal e parietal, caudado e putamen. A dopamina e seus transportadores se mostraram diminuídos no estriatum (caudado e putamen) nos animais que receberam MDMA.
Dos cincos macacos tratados com MDMA, um morreu de hipertermia, outro apresentou dificuldade motora após a segunda dose e não recebeu a terceira. Os outros três animais apresentaram boa tolerância, sem apresentar aparente dificuldade.

Duas semanas após o tratamento com MDMA, estes últimos três animais foram sacrificados, e as concentrações de serotonina e de dopamina mostraram-se reduzidas em diversas regiões cerebrais que processam esses neurotransmissores. Depois de seis semanas, o macaco que recebeu apenas duas doses foi também sacrificado, e resultados similares foram encontrados.

Além disso, os autores repetiram o mesmo esquema em babuínos (Papio anubis) e, depois de oito semanas após o tratamento com MDMA, registraram uma “profunda perda” de dopamina em neurônios estriatais, responsáveis pelo controle da motricidade.Em testes complementares, essa redução da dopamina esteve associada ao aumento da vulnerabilidade de disfunção motora.

Os presentes achados indicam que os mecanismos da neurotoxicidade do MDMA estão relacionados ao desenvolvimento de importantes reduções dopaminérgicas, sendo as serotonérgicas menos pronunciadas. Além disso, esses resultados são importantes nas tentativas de interpretação funcional das conseqüências do uso de MDMA em humanos. Nesse sentido, os autores especulam que a deficiência dopaminérgica pode estar associada a déficit cognitivo, como a perda de memória em alguns usuários. Embora não existam relatos de casos, eles chamam atenção para a possível associação do MDMA com o chamado mal de Parkinson (doença neurodegenerativa caracterizada principalmente pelo aparecimento de tremores rítmicos nos portadores). Assim, as evidências de neurotoxicidade do MDMA podem se contrapor ao uso recreacional como também ao eventual uso terapêutico dessa droga.

Site Álcool e Drogas sem Distorção (www.einstein.br/alcooledrogas)/Programa Álcool e Drogas (PAD) do Hospital Israelita Albert Einstein