Pilotos de Fórmula 1 passam por crise de imagem

Brad Spurgeon

Jornais no Reino Unido e na Finlândia anunciam que Kimi Raikkonen estava bêbado e se comportando de forma selvagem em um clube de dançarinas nuas em Londres, e o motorista foi advertido publicamente pela sua equipe de Fórmula 1.

David Coulthard estréia em uma nova equipe neste ano e, pela primeira vez em uma década, corre com uma barba descuidada, dirigindo nas duas primeiras corridas como um prisioneiro recém-libertado.

Michael Schumacher teve uma primeira corrida na temporada de 2005 marcada por uma lentidão frustrante, e terminou a sua estréia retirando um rival da pista. Os seus colegas pedem que ele se desculpe.

Cada um desses incidentes aparentemente sem relação entre si faz parte de uma crise de imagem na fórmula um, à medida que o esporte se transforma em um negócio cada vez maior e mais corporativo.

Todos se preparam para o Grande Prêmio de Bahrein, no domingo, esperando para ver se Fernando Alonso demonstrará se a sua personalidade exibicionista, exuberante e instável está pronta para derrubar o estilo robótico de Schumacher, após o espanhol ter vencido a última corrida, na Malásia, no mês passado.

Mas será que os pilotos de hoje são de fato diferentes daqueles do passado?

As corridas do tipo Grand Prix tiveram início com o Grande Prêmio da França em 1906. Nos primeiros anos do esporte os pilotos eram tidos como pioneiros. Depois, na metade do século, como cavalheiros. Na década de 70 eram playboys. E atualmente são vistos como atletas profissionais com um estilo de vida correto.

O dinheiro e a influência empresarial na fórmula um também sofreram mudanças, se expandindo de forma exponencial. Porém, uma constante se mantém: o perigo, a característica do esporte que atraiu os pilotos desde o início, embora o risco atualmente tenha diminuído muito.

A atual questão na fórmula um é saber qual é a imagem de piloto que melhor serve ao esporte. O tipo positivo e esportivo, ou o ousado e exibicionista? Não é de se surpreender que as respostas variem muito.

A equipe de Raikkonen, a McLaren-Mercedes, deixou claro o que pensa sobre a estripulia do piloto.

“Temos uma ampla gama de marcas multinacionais que estão associadas à nossa equipe, e elas não investem na Fórmula 1 por esse tipo de imagem”, disse o diretor-executivo da McLaren, Martin Whitmarsh, quando a equipe revelou o seu novo carro em janeiro. “Tomamos todas as medidas necessárias para garantir que Kimi entenda a seriedade da situação”.

Infelizmente, a imagem que a equipe divulgou da sua personalidade normalmente fria, acentuada pela sua tez pálida, o cabelo e os olhos claros, e que ficou definida pelo seu apelido, Ice Man (Homem de Gelo), ficou abalada.

Jacques Villeneuve, piloto da equipe Sauber, disse que o episódio provou que Raikkonen, afinal de contas, é humano.

“Todas essas corporações não querem que os seus pilotos arruínem as suas imagens, de forma que não podemos dizer o que pensamos”, disse ele ao jornal britânico “The Guardian” em fevereiro. “Basicamente, não contamos com a permissão para termos uma personalidade. Mas como é possível ter heróis se as personalidades não são permitidas?”.

Mas segundo Flavio Briatore, o playboy que dirige a equipe de Alonso, a Renault, a palavra “corporativo” não significa necessariamente “chato”.

“Se Raikkonen fosse meu piloto e tivesse ido a um clube beber um drinque e se divertir um pouco, isso não seria um problema para mim”, afirmou. “Temos que entender que um piloto jovem não é um robô. Contanto que não esteja bebendo na noite anterior à corrida, qual é o problema com a diversão?”.

Coulthard, que foi companheiro de equipe de Raikkonen no ano passado e que teve que esperar até que saísse da rígida McLaren para deixar a barba crescer, admitiu para o “The Herald Sun”, em Melbourne, antes do Grande Prêmio da Austrália, a primeira corrida do ano, em março, que ele próprio é um playboy.

“Desafio qualquer playboy de verdade a desprezar as oportunidades clássicas caso estas se apresentem”, disse ele.

Esse ponto de vista foi compartilhado por gerações. Em uma biografia escrita por Gerald Donaldson, James Hunt, que venceu o campeonato de 1976, relembrou uma conversa com seu amigo e companheiro de corrida Niki Lauda.

“Ambos percebemos que, devido ao tipo de atividade que escolhemos, não fazia sentido deixar as comemorações para depois”, disse Hunt. “Foi uma racionalização bem simples. As chances de que ambos morrêssemos eram muito altas. Assim, decidimos que nos divertiríamos durante todo o nosso percurso profissional”.

Enquanto Lauda quase perdeu a vida em um acidente em 1976, Hunt morreu aos 45 anos, em 1993, de um ataque cardíaco que, segundo alguns, foi conseqüência das festas, romances sem fim e o alegado uso de drogas.

Em uma reunião em Paris, na última quarta-feira, a Federação Internacional de Automobilismo, a instituição que controla o esporte, concordou em combater ainda mais as drogas, aderindo às regras da Agência Mundial Anti-Doping, a exemplo da maioria dos esportes.

Bernard Cahier, jornalista que cobre a Fórmula 1 desde 1952, disse que nos anos 50 e 60 os pilotos comiam, bebiam e fumavam o quanto quisessem. A atitude que prevalecia na época poderia estar vinculada em parte ao perigo. “Mas acredito que eles pensavam mais sobre a sensação do esporte, o amor pelo esporte, o amor pela direção”.

Vitantonio Liuzzi, um estreante da Red Bull, transpira personalidade e o amor pelas corridas. Mas os fãs das corridas se perguntam por quanto tempo isso vai durar no atual clima do esporte.

Já neste final de semana, Liuzzi terá que dar adeus ao seu brinco de pirata, já que a federação internacional proibiu o uso de jóias na quarta-feira. Até mesmo Schumacher terá que deixar de usar o amuleto da sorte que sua mulher lhe deu. Embora a federação não tenha explicado o porque da proibição, as razões prováveis devem dizer respeito à segurança.

Porém, é significativo que o mais grave ferimento ocorrido em anos com um piloto de Fórmula 1 tenha sido a fratura de ombro sofrida por Juan Pablo Montoya, na semana passada, quando jogava tênis com o seu treinador. Ele não correrá em Bahrein.

Se a imagem é tudo, os atuais pilotos podem ter um problema. Sempre houve pilotos descuidados, mas à medida que os carros ficam mais seguros, os pilotos assumem maiores riscos, incluindo alguns que fazem com que os esportistas pareçam ser menos éticos que no passado – como tirar os seus adversários da pista.

Stirling Moss, que já foi companheiro de equipe de Juan Manuel Fangio, que dominou as corridas de Fórmula 1 nos anos 50 com um estilo cavalheiresco, disse ter pensado que Schumacher teria sido diferente se corresse naquela época, tanto devido ao perigo quanto por causa dos ditames da era.

“Tenho certeza de que se Michael tivesse corrido conosco naquela época, ele teria sido bem mais ético do que parece ser agora”, disse Moss em 2002, quando o alemão igualou o recorde do Fangio, conquistando cinco títulos na Fórmula 1.

Tradução: Danilo Fonseca

Fonte: Herald Tribune