Longa acompanha jornada de “mula” na Colômbia

SÉRGIO RIZZO
do Guia da Folha

A trama de “Maria Cheia de Graça” parece saída do noticiário policial diretamente para o cinema, com suas personagens que se arriscam como “mulas” de traficantes –mulheres jovens que viajam levando cápsulas com drogas dentro do corpo. Descrito assim, talvez sugira um filme detetivesco em que haverá, no final, um agente esperto para desbaratar a quadrilha. Não é por aí, no entanto, que as coisas se desenrolam, embora exista muita tensão no ar.

A sensação de desconforto é fruto da proximidade com que se acompanha a jornada de Maria Alvarez (Catalina Sandino Moreno), 17, que leva sua vidinha em um vilarejo no interior da Colômbia, com um namorado bobo e uma rotina idem. Ali, os empregos são gerados quase que exclusivamente por uma plantação de rosas. Com o que ganha, Maria ajuda a sustentar a família.

Um dia a paciência se esgota, ela abandona o trabalho e o canto de sereia do tráfico a seduz sem que ela perceba direito como foi parar naquela fria. E põe fria nisso, como o espectador nota, sempre alguns passos à frente da protagonista, graças à posição privilegiada que o diretor e roteirista americano Joshua Marston, em seu longa de estréia, reserva para o público. O registro é quase antropológico, ao descrever o cenário socioeconômico do qual vêm os “mulas”, mas recorre também a fórmulas dramáticas para tornar extraordinária (e espiritual) a jornada de Maria.

A estreante Catalina Sandino Moreno, colombiana radicada nos EUA, 22 anos na época das filmagens, recebeu uma indicação ao Oscar de melhor atriz por seu desempenho minimalista. Seu rosto angelical, sozinho, responde por boa parte da pureza e fragilidade (depois, força) que a personagem pedia. Simbiose que, bem-sucedida aqui, talvez se transforme em estigma que emperre sua carreira.