Dependência de nicotina nos Estados Unidos: prevalência, variações e tendências entre diferentes grupos etários e persistência do uso

Naomi Breslau
Eric Johnson
Eva Hiripi
Ronald Kessler

Introdução

Apesar de haver muitas evidências científicas de que o tabagismo está associado a um alto índice de dependência, há poucas evidências sobre a epidemiologia da dependência de nicotina. Robins e colaboradores relataram a prevalência ao longo da vida de dependência de nicotina pelo DSM-III em St Lous e os fatores de risco relacionados à dependência de nicotina não foram relatados.
Kandel e colaboradores encontraram os valores para dependência de nicotina no estudo sobre abuso de substâncias em vários domicílios dos EUA (National Household Survey of Drug Abuse). Neste estudo foi avaliada a prevalência de dependência de nicotina no “último ano” mas os fatores de risco para dependência e tendências ao longo do tempo não foram estimados.
Breslau e colaboradores verificaram a dependência de nicotina em uma amostra representativa de adultos jovens de Michigan, no entanto, este estudo também deixou de verificar a prevalência e persistência do uso do tabaco em outras faixas etárias.
No estudo desta semana, os autores descrevem a incidência acumulada de tabagismo na população estudada assim como a transição do uso diário para a dependência de nicotina. Acredita-se que o tabaco é uma substância altamente aditiva e que são necessárias múltiplas exposições para que o usuário passe do uso intermitente para a dependência. Neste estudo, os dados sócios demográficos associados à dependência nicotínica assim como o papel da dependência na persistência do hábito foram estudados.

Métodos

O National Comorbidity Survey é um estudo que avaliou 8098 pessoas entre 15 e 54 anos pertencentes a uma população não institucionlizada dos EUA. A entrevista utilizada foi uma versão modificada do CIDI – Composite International Diagnostic Interview, uma entrevista estruturada desenvolvida pela Organização Mundial de Saúde. O Suplemento de Tabaco foi aplicado em 4414 indivíduos.

Análise estatística: As curvas de incidência acumulada para uso diário de álcool e dependência de nicotina foram obtidas pelo método de análise de sobrevivência Kaplan-Meier. As associações de variáveis sócio demográficas com tabagismo foram estimadas através de análises de regressão logística.

Resultados

Uso diário de tabaco e transição da dependência de nicotina

A prevalência ao longo da vida para uso diário de tabaco foi de 49% e a prevalência de dependência de nicotina foi de 24,1%.
A idade de início para uso diário de tabaco ocorreu na maior parte da amostra antes dos 25 anos. Em contraste, o início da dependência de nicotina entre os indivíduos que faziam uso diário do tabaco continuou na faixa dos 40 anos.
Em 5,4% dos casos, o início da dependência ocorreu no mesmo ano ou antes que o uso diário do tabaco tivesse tido início, logo, estas pessoas foram excluídas da análise. Na maior parte dos casos o início da dependência de nicotina se iniciou 1 ano ou mais após o período de uso diário do tabaco, e este período correspondeu a aproximadamente 16 anos entre um marco e outro.
Das 4 coortes de idade estudadas (15 – 24, 25 – 34, 35 – 44 e 45 a 54 anos), quem na época do estudo tinha de 15 a 24 anos teve menor risco de se tornar usuário diário de tabaco. As mulheres também tiveram menor risco do que os homens e não brancos menor risco do que brancos de se tornarem dependentes.
O risco para “uso diário de tabaco” não demonstrou correlação com nível sócio econômico.

Tendências ao longo de diferentes faixas etárias

Indivíduos pertencentes ao grupo etário mais recente (45-55) foram os que menos fizeram uso diário de tabaco. Com relação à dependência de nicotina, o oposto foi encontrado, ou seja, cada grupo etário demonstrou em relação ao outro um diferença significativa em termos de incidência acumulada de casos de dependência, sendo que o grupo de 45 a 55 anos foi o que apresentaram os maiores índices de dependência. Foi examinado o impacto da dependência de nicotina na persistência do uso do tabaco. Os indivíduos que se tornaram dependentes demonstraram maior persistência deste uso nos “últimos doze meses” que antecederam o estudo.

Muito embora a prevalência do tabagismo esteja diminuindo na população americana, este estudo demonstrou variações importantes entre os diferentes grupos etários. Tais diferenças são importantes para que outros estudos sobre dependência nicotínica e persistência do uso do tabaco sejam realizados com ênfase nos aspectos biológicos e sócio culturais que possam estar implicados.
Fonte: Site Álcool e Drogas sem Distorção (www.einstein.br/alcooledrogas)/Programa Álcool e Drogas (PAD) do Hospital Israelita Albert Einstein