Brasil e Paraguai se unem contra o tráfico de drogas

Agentes do Brasil e do Paraguai organizam ações conjuntas, com a ajuda dos Estados Unidos, para combater o poder dos 12 maiores traficantes que atuam na fronteira dos dois países

(Maria Clara Prates/Estado de Minas)

A estratégia para pôr fim ao domínio das organizações criminosas que atuam na fronteira entre Brasil e Paraguai, é quase de guerra. O governador do departamento de Amambay, Roberto Acevedo, anunciou que na região vai ser montado, com apoio da toda poderosa polícia americana antidroga – Drugs Enforcement Administration (DEA) –, um quartel especial para a luta contra os narcotraficantes. O terreno foi doado pelo governo paraguaio, sendo que a construção e os equipamentos vão ser doados pelo governo americano.

O objetivo da construção do quartel é tornar o estado mais presente na região. Ele será equipado com helicópteros, para aumentar o controle da fronteira. Seu ponto alto, no entanto, será seu setor de inteligência, que vai municiar a polícia com informações para um combate mais efetivo às organizações criminosas. “As prisões dos integrantes desses grupos não são suficientes para inibir sua ação, porque a estrutura do tráfico permanece intacta”, constata Acevedo.

No Brasil, a estratégia, que vem sendo mantida em sigilo desde o ano passado, é outra. De acordo com o juiz federal de Ponta Porã (MS), Odilon de Oliveira, a guerra será nos papéis. Um acordo assinado entre os dois países reduziu a burocracia e está permitindo um processo de extradição menos burocrático e a troca de informações entres os poderes judiciários de Brasil e Paraguai, sem cumprir um longo ritual. “Além da extradição, podemos fazer inquirição de testemunha no outro país, requisitar documento e até mesmo provas”, explica Oliveira. “Podemos ser mais ágeis”, conclui.

Confisco

Mas a carta na manga dos governos brasileiro e paraguaio, para esvaziar o poderio econômico e financeiro dos 12 traficantes brasileiros, considerados os maiores do País e responsáveis por uma movimentação de mais de US$ 20 milhões mensais, através de seus narconegócios, está no confisco do milionário patrimônio do grupo. Levantamento preliminar das autoridades paraguaias aponta que, juntos, eles têm patrimônio superior a US$ 600 milhões, em fazendas, imóveis e empresas, onde lavam o dinheiro sujo. Uma atividade econômica tão intensa que transformou a região de Ponta Porã (MS) na segunda maior lavanderia do País, que perde apenas para Foz do Iguaçu (PR).

Toda a movimentação das autoridades nesse sentido está expressa em ofícios do Departamento de Polícia Federal do Brasil, Fiscalia Nacional e Secretaria Nacional Antidrogas do Paraguai, desde o ano passado, que acabam por denunciar a estratégia. Oficialmente, os federais brasileiros se fecham num silêncio absoluto. Posição idêntica é adotada pelo Ministério da Justiça, que através de seu Departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação Internacional, participa ativamente do esforço. O chefe do setor, Antenor Madruga, não nega a investida, mas diz que não fala sobre apurações “sob sigilo”.

Como um dos idealizadores da ação, o juiz federal Odilon de Oliveira confirma que, desde 2004, vários encontros foram promovidos em Ponta Porã e Assunção para discutir com o Judiciário, Ministério Público, Polícia e a Senad do Paraguai a agilização dos processos e, conseqüentemente, a perda dos bens. “A forma mais eficiente de combater organizações criminosas é tirar sua capacidade financeira”, afirma Oliveira. O levantamento dos bens foi iniciado e o processo de confisco do patrimônio será feito a medida que forem julgados traficantes. O Brasil já recebeu o levantamento completo do patrimônio de quatro dos 12 barões do tráfico na região da fronteira dos dois países.

Meio a meio

De acordo com o protocolo firmado entre Brasil e Paraguai, segundo o juiz Oliveira, os bens confiscados pela Justiça brasileira e localizados no país vizinho serão leiloados pela Senad paraguaia e o total arrecadado será posteriormente dividido em partes iguais entre os dois países. “Mesmo que não nos fosse repassado nada em dinheiro, ainda assim estaríamos ganhando”, garante. Segundo o juiz, a cidade de Ponta Porã é o principal polo exportador de maconha para os estados brasileiros, respondendo por 80% desde mercado ilegal. Agora, avança também no tráfico de cocaína, via terrestre, desde a lei do abate, que autoriza a derrubada de aeronave suspeita de tráfico. “Para dimensionarmos o tamanho do problema, basta recorremos às estatísticas. Em 2003, o Paraguai tinha 3 mil hectares plantados com maconha, que saltou no ano passado para 5,5mil. E pior. Apresentam ao mercado novidades a maconha mentolada, que, além de mais prazerosa, desvia o faro dos cães”, afirma Oliveira.
Fonte:Estado de Minas